quinta-feira, 23 de abril de 2015

S O N H O S.

S O N H O S.

O homem acorda suado. Olha para o lado e sente-se frustrado, pois não vê a mulher que povoou seus sonhos. O sonho tão real o faz recordar que o relacionamento entre ambos está definitivamente enterrado no passado. Para ele só existe o futuro, não estando registrado ou projetado qualquer tipo de ligação afetiva. A certeza tem o sinônimo de decisão tomada. Ledo engano!
Levanta-se. Refresca-se e fica a vigiar a rua erma. As folhas das árvores projetam sombras com formas diversas. As luzes bruxuleavam e as mariposas bailavam em redor das lâmpadas não deixando evidências de que se queriam aquecer ou simplesmente fazer-se mostrar para quem as quisessem ver. Os seres, ditos irracionais, são movidos também pela vaidade. Os pavões abrem-se para mostrar a exuberância da sua plumagem. O galo garnizé assume papel de um autêntico mestre-sala na dança de proteção e conquista às galinhas. Aplausos para ambos!
O personagem volta à cama. Entre o torpor do sono e o flutuar do sonho as figuras se entrelaçam não se podendo afirmar claramente o que seja real ou fruto da imaginação.
O devaneio o faz transportar, sem qualquer ônus, para o Reino de Cordel, onde o Mestre Vitalino rapidamente conquista sua afeição e respeito. 
Das mãos mágicas do artesão surgem cinderelas, cavaleiros, serpentes, carrancas e soldados. Na tabatinga são moldadas figuras inúmeras que tomam vida, dançam, lutam e ganham o Céu. No agreste povoado por calangos, serpentes e roedores famintos surge a imponência do Juazeiro que impera altivo e a que todos obedecem, portanto, ali fica a entrada e a saída do mundo do faz-de-conta.
O sonhador, deitado na rede, toca a viola e curte a vida boa. Bem próximo ao Juazeiro o algodoeiro exibe sua flor de cor alva. Uma lufada de ar quente rouba a flor que, na queda rumo ao solo sedento, executa várias piruetas. O homem para de tocar a viola e extasiado vê surgir da flor, completamente nua e com dotes de deusa , sua eterna tentação amorosa.
Cabeleira loura, olhos claros, boca sensual e dentes de puro marfim. Os seios apontam para o sol escaldante. A cintura fina faz contrastar com as duas pernas roliças e longas. Na junção das grossas coxas uma pequena região cor de ouro se deixa mostrar. È o princípio do abismo no qual está o tempero do amor, do delírio, da paixão, da perdição, da redenção, do bem, do mal e da prisão sem grades. Neste abismo o sonhador carece da razão: simplesmente enlouquece e geme lânguido sem sentir dor.
O homem outra vez acorda assustado. O sol bate-lhe no rosto o chamando para a vida. Sabe-se que se pode fugir dos sonhos, porém, jamais da realidade.
_ Puxa vida ! Que sonho louco! – resmunga, ainda sonolento.
O transcorrer do dia não lhe foi diferente dos demais, porém o sonho da noite anterior o cutucava tal qual o espinho à flor da pele: se forçasse, doía mais. Esse seu estado de espírito o fez adentrar na igreja. O silêncio o confortava. Para ele o momento era de profunda reflexão. Sentia-se protegido dentro do local sagrado. Ajoelha-se e une as mãos. Seus olhos visitam as imagens santas e se fixam em Maria – mãe de Jesus -. Fecha os olhos, reza e pede proteção. Abre o peito e dialoga mentalmente com Maria. Diz-se preocupado com a saudade que toma o seu pensamento, principalmente quando tenta dormir. Reconhece que o transe do sonho tem seu lado agradável, pois lhe permite prolongar e reviver momentos agradáveis, todavia em não sendo real, machuca-o. Será que vale a pena sorrir e depois chorar? Doce dilema! Grande angústia!
Deixa a igreja com a sensação de leveza na alma e no corpo. A noite chega. Apavora-se!
Fecha os olhos à procura do sono. Tenta deixar-se levar, todavia, a consciência dita a mensagem de que a metade do seu coração pertence àquela mulher e que a outra metade também.
Antes mesmo de se levar pelo sono, pede a Deus que o faça sonhar.......
..........com ela.
Sidney Tito

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