P R E F Á C I O
Ninguém consegue planejar o futuro. Pode-se até dar um formato, porém nada mais que isso.
A cada dia a vida nos prepara novas ciladas e experiências. E o amor pode nos alcançar a qualquer momento, em qualquer lugar, sem qualquer aviso prévio.
Feliz é aquele que pode amar e ser amado, que pode dormir com a certeza de poder sonhar.
E pouco importa o tempo ou o lugar. A idade não tem importância, pois, para quem ama, o tempo não conta.
O autor.
A M u d a n ç a.
Adeus, cidade! Xô, violência! Fui !
Essas expressões exemplificam o fiel da balança espiritual de Dornelles. O falecimento da esposa e o sequestro o fizeram decidir mudar de cidade. A tecnologia, sua boa saúde, sua equilibrada situação financeira e também o seu modo simples de viver formavam sólida base de argumentação diante do apelo dos poucos, porém sinceros, amigos que o tentavam demover da resolução já tomada.
Seus dias se esvaiam na metódica rotina de café, jornais, televisão, música e torneios de sinuca e xadrez, via internet. Todos os seus programas preferidos, e aí incluindo seus jogos de futebol, estavam a um toque dos seus dedos. Havia a tranquilidade de, se estivesse necessitado de ver vitrines, conversar, ver paisagens novas, pegar seu carro e sair pelo mundo. Tinha um amigo único e inseparável. Mais que amigo, quase filho, quase irmão. Esse seu amigo o mantinha à mira dos olhos, aquecia-lhe os pés e seguia-lhe os passos: seu cachorro chamado de Dunga. Semelhante à mensagem comercial de um cartão de crédito, "não saia de casa sem ele", Dornelles não deixava seu cão. Um era o convexo, o outro seria o côncavo. O veneno e o antídoto. Eram
matérias diferentes , mas inseparáveis.
Um dependia do outro e os dias iam passando.
Dornelles atentou para um detalhe simples, mas que passou a incorporar o seu novo modo de viver. Andavam pelas areias da praia e ao longe paravam. Dornelles corria com os olhos as pegadas deixadas na areia. Sorria feliz ao constatar que quatro pegadas seguiam simetricamente ao lado dos seus passos. Esse pequeno, simples e inocente fato o fazia feliz tal qual uma criança quando corre ladeira abaixo empinando sua pipa. Sua alma levitava, seu sorriso se alargava e o vento lhe lavava o rosto. Tinha a sensação de que seu coração gargalhava. Sentia-se inocente, sem medo de pecar, sem vergonha e sem policiamento ético ou moral. Suas lembranças folheavam todos os atos que fizeram parte do seu passado. Quando precisava de alguma resposta, perguntava ao seu velho companheiro que lho respondia com um sonoro "au-au". Nada mal ! Não o censurava e não brigava. Do olhar do cão, via apenas uma pequena frase : "Tá bom" !" Gosto de você". Nesse momento a paz o vestia de santo. Reconhecia ser tão pequeno, tão puro e tão filho de Deus e agradecia por se considerar assim.
E assim os dias se iam passando.
Em determinada etapa da sua vida concluiu que seus dois pilares estavam assentados na vida da esposa e na companhia do pequeno cão. Se na sua infância havia uma lacuna representada pela morte do seu antigo animal, hoje essa falha estava preenchida. Na infância, a presença do cão simbolizava uma companhia de aventuras. Já na fase atual, Dunga representava uma presença mais forte, mais sedimentada na proposta que mesclava amizade, carinho, responsabilidade e companheirismo. Portanto, esses marcos eram mais sensíveis, mais acurados, responsáveis e muito mais profundos. Em caso de perda do canino, não ficaria apenas a saudade, ficaria uma cicatriz que sangraria até o final da vida de Dornelles. E, de fato, sangrou.
O A s s a l t o.
Depois que Dornelles passou a conhecer a localidade e tomar posse em definitivo da nova casa, a frequência com que visitava a pequena Aldeia de Pescadores tornou-se mais constante. Apesar de querer total tranquilidade, encontrou naquelas pessoas a ingenuidade, a franqueza e a cordialidade quase angelical de que tanto admirava no ser humano. Naquele pequeno paraíso - tal qual um elo perdido do mundo - escolheu viver ali seus derradeiros anos de vida. E havia justificativa para essa escolha. A cidade o havia magoado. Via a maldade e a violência crescerem juntas e se preocupava com a osmose que parecia existir entre ambas. Na sua observação dedectou que essa abominável violência já estava tomando conta do seu próprio viver. As cenas mostradas nos telejornais já se tornavam familiares e figurativamente sentavam-se ao seu lado. Já não havia uma reação ou uma repugnância.
Após ter sofrido um sequestro relâmpago, algumas madrugadas se tornaram longas, pois os pesadelos eram constantes e o fazia acordar com gosto de sangue na boca. Relembrava dos três tipos que o ameaçaram com revolveres nas mãos:
_ Perdeu, tio ! Perdeu !
- Fica quieto coroa ou te mando chumbo ! - gritava o outro assaltante.
A situação fora inesperada. O susto maior ainda. Os três jovens usavam tocas ninjas. Todos tinham as mão trêmulas. As armas usadas pareciam tão grandes quanto o temor que ele sentia. Olhos injetados. Frases curtas e apressadas. Que medo !
Naquele momento sua vida de nada valia. De que adiantava o respeito ao próximo, o carinho no tratar com os colegas, seus amigos e sua esposa ? Qual seria o valor da sua cultura, do seu caráter e da sua honradez ? Nada , simplesmente, nada !
A coronhada o fez desmaiar. Perdera o carro, o dinheiro, cordão e o relógio tão estimado. Ficou apenas o sangue a lhe escorrer pelo rosto. Ficou o gosto ferruginoso. Restou a lembrança do líquido quente que ao esfriar ficava com se fosse um corpo estranho colado à pele. Um sensação esquisita. Enfim, não morrera! Pensava:
"Foram-se os anéis, ficaram os dedos".
Deus o protegia. Era essa a sua mais veemente certeza. A outra ;
"Viver na cidade ? Já era !
A Casa.
A casa fica defronte ao mar. O local é de difícil acesso por terra, mas fácil pelo mar, pois há um ancoradouro muito antigo, todavia bastante robusto e construído sobre pedras recobertas e protegidas por mariscos, ladeadas por toras de madeira de extrema rigidez. O cais oferece total e excelente comodidade e segurança às embarcações de pequeno calado.
Curiosamente , não se sabe o autor, destaca-se uma espaçosa cadeira em forma de carranca. semelhante as que cuidam e enfeitam o curso do Velho Chico. Dessa acomodação, feita de um único tronco talhado o privilegiado observador poderia exercitar o ócio da preguiça e regalar seus olhos ao fitar o mar azul e a imaginar o beijo do céu às ondas que bailavam no limite do horizonte. Apesar do aspecto rudimentar do assento, a forma de carranca oferecia proteção solar o que permitia ao felizardo observador pura comodidade e prazer. Parecia um trono de algum rei nativo africano.
Feita de tijolos deitados, as paredes se apresentavam largas, rígidas e com robustez de fortaleza medieval. As paredes brancas contrastavam com o azul das portas e janelas. Essa é a descrição externa da casa, o que nos faz certificar como sendo uma construção do século XVIII. Ao se adentrar, o mais desavisado, ou quem tiver um espírito mais sensível, exclamará :
"Apenas um portal nos separa o passado do futuro".
De fato , há procedência na expressão.
Confortáveis sofás e poltronas, revestidas por couro cru ou tingidos sobre um assoalho construído artesanalmente, combinando mogno e mármores, cobertos e banhados em resina, representam uma ampla e arejada sala. Essa combinação de material além de expor um espaço clean, fazia acentuar o bom gosto, a leveza e harmonia do ambiente.
A um canto da sala, um bar para o deleite de seis pessoas. Em um dos lados fica um balcão ocupado por copos, bandejas e todos os apetrechos pertinentes a quem sabe saborear um bom vinho, conhaque e outros tipos de bebidas.
Do lado oposto, delimitado por tapetes, fica a aparelhagem de som e vídeo. Mais adiante, e à direita, predomina uma mesa de jantar para oito pessoas. Sobre a mesa , e cravada no teto, há uma claraboia que propicia boa iluminação e que lança discretas, e quase imperceptíveis, formas de estrelas. Essas imagens têm origem no vidro sextavado que cobre a claraboia ; um primor de artesanato que poderia figurar no teto da Capela Cistina.
Já bem ao fundo, vê-se o quintal que é abraçado por uma vegetação tropical e cujo limite fica a cargo do campo visual de quem observa, pois a área do quintal embaralha-se com a floresta contígua pertencente ao Posto Zootécnico da União. A região é adubada e revigorada por um córrego que nasce no topo da montanha. Esse filho da natureza assegura uma água límpida, pura e fria. No curso do rio, a imaginação do homem fez construir uma piscina natural que é alimentada e ornada por uma cachoeira, em forma de véu de noiva.
O quintal acolhe também parte coberta na qual foi construída uma churrasqueira, ladeada e repleta de mesas e cadeiras de madeira envernizada. Nas paredes, ficam largas prateleiras, nas quais enfileiram-se amoladores, facas, garfos, copos de barro ou alumínio. Garrafas de aguardentes de diferentes origens dão a entender que os visitantes completavam o espaço com recordações particulares. Em vez de bandeiras, garrafas. Em posição de reinado absoluto, dominava a presença de uma chopeira fabricada em bronze e aço.
Acentuava-se também um espaçoso quarto destinado à criadagem. Apesar da finalidade, havia uma cama de casal e requintado banheiro, conforto digno para qualquer convidado. Aliás, quantas e quantas noites o doutor Dornelles lá dormira ? Quando da estação do verão abrasador em qualquer outro local, lá predominava uma temperatura amena circunstanciada pela brisa que nascia no mar e vinha se refrescar por entre a vegetação virgem da região.
Esse quarto era ocupado por Mercedes, quer durante o dia, quer durante a noite, principalmente quando houvesse qualquer empecilho para regressar à Aldeia dos Pescadores. Com o tempo essa cama de casal incorporou o cheiro emanado do corpo de Mercedes. Dornelles já distinguia o aroma adocicado dela. Ela também já identificava o cheiro másculo dele. Aliás, para bem definir o clima reinante, quantas e quantas noites um procurava o cheiro do outro ! Eram atitudes movidas pelo subconsciente, nada planejado. Tal qual o instinto animal, quando o macho procura a fêmea, Dornelles procurava embriagar-se com o perfume de Mercedes. Furtivamente, ela fazia o mesmo. E quando constatava o cheiro recente, quase morno, abraçava o travesseiro bem de encontro aos seios e suspirava languidamente !
Os dias se passavam. A vida não para !!
A A l d e i a.
Distante cerca de 8 quilômetros da casa do Doutor Dornelles havia uma pequena e humilde Colônia de Pescadores. Como em qualquer grupo, destacava-se um responsável tido como protetor e conselheiro. Essa figura era representada pelo velho Dourado e cuja esposa atendia pelo nome de Nhá Filó. Se somássemos a idade de ambos, o valor resultaria num total de três dígitos. Ambos analfabetos, mas sabiam contar.
Da união , pois não casaram oficialmente, nasceram quatro filhos, todos pescadores , sendo que João Dourado o mar levou. Restaram Damião, Eduardo e Alfredo. Aos nomes não se davam qualquer importância, pois se apelidaram de Cocoroca, Pintado e Vermelho. Como parte da família, havia Mercedes, tida como viúva de João Dourado. Em virtude da idade dos sogros e das tarefas dos cunhados, Mercedes cuidava dos afazeres domésticos. Cozinhava, salgava peixes, costurava e também, na cidade revendia peixes e algumas peças de artesanatos que ela própria fabricava. Tinha dom para arranjos florais e para algumas peças talhadas em madeira. Sempre ao por do sol ficava a mirar o mar na doce ilusão de ver João Dourado surgir e sair do mar. Ela própria e os demais sabiam dessa perda de tempo, mas o que fazer ? Que a deixasse com suas manias. Os próprios sogros a tinham aconselhado a aceitar o destino e que arranjasse um novo marido. Ao receber tal conselho, Mercedes apenas escutava. Seus olhos da cor das esmeraldas se acendiam e esboçava um tímido sorriso.
Era considerada pela pequena comunidade como membro efetivo da Família Dourado, pois há décadas passadas, após um dia de terrível tempestade, surgiu Mercedes, amparada pela sua mãe verdadeira. A jovem e desconhecida senhora trazia a pequena menina segura por uma das mãos e, na outra, uma sacola com algumas peças de roupas e um envelope no qual continha uma certidão de nascimento, atestando o assentamento de Mercedes Peres Alonso, filha de Carmem Villa Real Peres e Pablo Escobar Alonso. O estado febril de Carmem fez com que a família Dourado as atendesse e as abrigasse nas precárias dependências da pequena aldeia. De tudo foi feito para socorrê-la, porém o grave estado de saúde da desconhecida a levou a falecer. Como de costume da família, a falecida fora enterrada sob uma frondosa amendoeira. Da menina, pouco se pode saber, pois dos seus poucos anos de vida não se podia respostas obter. Assim, a pequena cresceu junto aos "pais Dourados".
A verdade lhe havia sido dita e talvez por esse pequeno, mas importantíssimo detalhe, além de grata, aprendeu a amá-los e jamais se afastava dos pais adotivos e também sogros. Havia gratidão, respeito e amor. Mercedes jamais havia alçado vôo além da cidadezinha onde vendia seus apetrechos e peixes. Do mundo nada sabia. Da vida pouco tinha conhecimento. Vivia num mundo mecânico, atrelado aos costumes primitivos da família de pescadores. Dentro da rotina diária, ficava a esperar, junto com Nhá Filó, a volta dos pescadores. Isto acontecendo, tudo voltava a ser o que fora ontem.
Cresceu e seu instinto de mulher a fez pôr olhos em João Dourado. Se enamoraram e "casaram" sob as bênçãos dos pais adotivos. Da parte dela, não havia paixão ou amor, talvez o grito da carne ou a tradição que acompanha os povos, nada de excepcional mudou na vida dos nubentes, exceto o fato de que ela era esposa de João. Para João, as raríssimas farras na cidade distante acabaram: era um homem casado, portanto o respeito era necessário além de que seus sentimentos, principalmente após o casório, focavam exclusivamente para Mercedes.
Em um determinado e infeliz dia, o barco comandado por João Dourado apareceu sem o seu comandante e encalhou nas areias da praia. Faltava um remo e apresentava diversas avarias provenientes, talvez, de um choque com outra embarcação de maior calado ou a luta com um peixe de tamanho descomunal ou uma batida com algum recife até então não conhecido. Várias hipóteses foram levantadas, mas nenhuma conclusão. De verdade, apenas o desaparecimento do corpo. Desse episódio, ficou a saudade de todos e o olhar cabisbaixo de Mercedes. Se ela pouco falava, passou a falar menos ainda. Não derramou lágrimas, mas seu coração se entristeceu e se fechou para novos sentimentos. Parecia uma onça arredia, desconfiada e enclausurada. Todos a respeitavam, era querida e paparicada em igual grau. Os anos se iam passando. As árvores frutificavam, perdiam as flores e folhas, os ventos sopravam e levavam as folhas mortas e secas para bem longe. Os dias eram cópias dos anteriores. Contudo, como as ondas do mar, nada era exatamente igual. As semelhanças se confundiam como se fossem mesmices, mas, no cerne sabe-se que tudo muda. A prova disso é que, com a chegada do Doutor Dornelles, a vida dos pescadores mudou. Mercedes sentiu forte impacto, pois, ao ver o recém chegado, seu coração bateu rápido e forte. Seus olhos verdes se acenderam tal qual a luz do farol que rasga a noite escura e direciona o navegante que busca a direção correta.
O C o n v í v i o.
Na Colônia dos Pescadores, o recém chegado Dornelles era tratado como se fosse um fidalgo. Esse tratamento especial o constrangia, isso porque não se julgava merecedor. Contudo, apesar das explicações e pedidos aos moradores, nada se modificou e não houve qualquer alteração no tratamento . Os melhores quitutes, as sobremesas e todos os pratos especiais lhe eram oferecidos. Nhá Filó ficava furiosa e se mostrava amuada quando houvesse recusa. Mercedes, sempre discreta, o fuzilava com seus olhos de pantera: não conseguia disfarçar sua zanga. Era ela quem preparava essas iguarias, embora fosse Nhá Filó a mandante.
As visitas de Dornelles à colônia eram frequentes não só pela amizade existente, mas também em função da sua própria curiosidade. Diante da necessidade,Dornelles se viu forçado a contratar algum ajudante para a tarefa de bem receber seus visitantes amigos. Sabia-se que essas ocasiões não eram constantes, mas ocorria que alguns visitantes alongavam a permanência e a ajuda se fazia primordial.
Após uma pequena consulta à Nhá Filó, ficou acertado a contratação de Mercedes. Ela não exerceria o papel exclusivo de empregada, mas de cooperadora. Se houvesse necessidade, Nhá Filó e o marido poderiam ajudar.
Firmaram um excelente negócio e a aldeia ficou agradecida ao benemérito Doutor Dornelles. Salvo nos dias de visitas, não haveria compromisso de horário, portanto Mercedes seria tão livre como os pássaros. Quando necessário, poderia cuidar e dormir na casa. A confiança era mútua. No íntimo, Mercedes estava eufórica. Deixaria de ir à cidade vender peixes e arranjos florais, já que o salário combinado representava muito mais do que auferia com aquela atividade. Além de tudo, estava bem perto de dele. Seu coração feliz estava. Seu corpo se arrepiava ao pensar na proximidade com Dornelles. Seus seios arfavam no ritmo da emoção decantada e que invadia seu corpo.
- Tô doida, meu Deus ! Virgem Maria !
E pedia perdão a Deus.
E o que falar de Dornelles ?
Dornelles mostrou-se aliviado e feliz. Resolvera uma preocupação e ganhou uma satisfação. Porém, existia uma inquietação moral que o consumia semelhante ao fogo que lentamente vai devorando a madeira miúda. Por conta dessa inquietação moral, quase o fez sucumbir com o trato. Ele não poderia permitir o uso do poder financeiro sobre a necessidade do mais carente. Seus sentimentos jamais permitiriam que essa ação se consumasse. Não ! Jamais ! O seu coração e a sua consciência estavam limpos e irmanados contra essa conotação. E assim foi feito. E assim ficou.
FESTA DE SÃO PEDRO.
O dia é consagrado a São Pedro. Singram pelo mar embarcações diversas. Algumas enfeitadas e repletas de pessoas que festejam e reverenciam o Padroeiro dos Pescadores. A Família Dourado também participava da festa e, portanto, seguia o cortejo marítimo. Era dia de festa. A alegria era geral. Os barcos buzinavam e enfeitavam o mar.
Dornelles acabara de chegar em casa e, ao entrar, ouve pequeno ruído vindo do quarto de hóspede, situado na área interna, e se depara com Mercedes semi-nua. Ambos ficam petrificados. Dornelles é dominado por um desejo há muito contido. Maquinalmente avança tal qual um sonâmbulo rumo à Mercedes que permanece estática a segurar a toalha que mal lhe cobre os seios pontiagudos. Gotas de água deslizam dos cabelos e somem por entre os seus seios.
Dornelles avança e Mercedes não recua.
Há muito que ele desejava aquela mulher, que pouco falava e sempre mantinha um olhar cabisbaixo. Fascinado por ela, descobrira que a recatada Mercedes possuía um par de olhos tão verdes que se afigurava a duas gemas da mais autêntica esmeralda. Era de um verde único e inigualável. Essas duas gemas brilhavam tão intensamente nas ocasiões em que seus olhares se cruzavam. Pela sua longa experiência , e pelo seu sexto sentido, e inclusive pela mensagem que seu coração emitia tinha ele a certeza de que se queriam. E se queriam muito mais do que eles próprios poderiam imaginar!
Contudo, ele já não se sentia um lobo caçador, ou um lobo mau, pronto a devorar a Chapeuzinho Vermelho, assim a cautela era mais evidente que o sabor irresponsável da aventura. Havia ele trocado, e quase sempre assim agira, a quantidade pela qualidade. A saudade da sua falecida esposa funcionava como um escudo protetor. Inúmeras mulheres se apresentaram dispostas a preencher o vazio que marcava seu coração. Acreditava que não mais se interessaria por alguém, principalmente em se tratando de dividir o mesmo espaço e compartilhar da mesma escova de dentes. E por que magoar seu coração caso houvesse uma decepção? Era esse o seu atual pensamento, todavia sentia falta de um corpo vibrante e quente. No seu íntimo, pressentia que o velho coração voltaria a pulsar forte. Continha-se. Mas, nessa vertente de pensamento seu coração sistematicamente perguntava: E a Mercedes ?
_ Coração bobo! - resmungava, em resposta.
E os dias se iam passando e passando tal qual a paisagem que se vislumbra pela janela do trem que corre, preguiçosamente, por sobre os trilhos sinuosos.
A D O R.
O dia amanhecera chuvoso. Dornelles acordou fora do seu horário habitual. A seus pés uma pequena "trouxa negra". Literalmente, o pequeno cão lhe aquecia os pés. Virou e tornou-se um vício, pois, ao deitar-se, o cachorro pulava na cama e se posicionava colado aos pés do dono e amigo. E assim dormiam. O dono de olho no cão e o cão vigiando o dono.
Dornelles levanta-se e percebe a presença de Mercedes. Desce do andar superior rumo à sala. Depara com Mercedes que já cuidava em organizar o café matinal. Por ser o dia de cuidar das roupas, lençóis e de passá-las a ferro, ela chegara bem cedo. Não havia a obrigatoriedade de horário e se sentia satisfeita em cuidar do patrão e ficava radiante quando servia e participava desse momento especial. Nessa ocasião Mercedes parecia uma menina sapeca. Todo aquele acanhamento, misto de introspecção e simplicidade, alçava vôo e desaparecia.Mesmo assim, respondia pouco, mas perguntava muito. Durante esse bate-papo, Dornelles ficava enfeitiçado pelos olhos verdes, pela boca carnuda que protegia uma dentição alva como se fosse um chumaço de algodão ou uma nuvem que pinta o céu em dia de verão. Ele já tinha conhecimento do frenesi que sentia e que o seu coração também reconhecia. Parecia um ginasiano ao descobrir o primeiro amor juvenil e a "fazer corte" à menina que pretendia namorar. Qualquer frase, qualquer comentário feito, Dornelles abria um sorriso. Tinha paciência do avô a ensinar o neto. Era o professor a educar o aluno. Era o peão a conduzir a boiada. Era o beija-flor a beijar a rosa.
_ Dunga !! - chama o dono.
O animal não aparece. Nesse momento Mercedes já havia posto a ração no recipiente do canino. Ela já estava totalmente afeiçoada ao animal. Já sentia falta do cão. Parecia que o pequeno animal já a tinha como dona. Em algumas tardes, quando Dornelles não estava presente, e Mercedes resolvesse ver televisão no quarto, lá estava o animal esticado a seus pés. E não se desgrudavam.
_Dunga !! - chama outra vez o dono.
Ao escutar o dono a chamar o cão, Mercedes torna-se pálida. Pressente o pior! Sobe lépida rumo ao quarto. Seu coração palpita e dispara num ritmo frenético e faz eclodir um grito:
- Não, Deus !!.
Num gesto mecânico e protetor, aflito e maternal aconchega o corpo inerte do animal junto ao peito. E deixa extravasar lágrimas copiosas, quentes e reveladora de uma dor sem fim.
Dornelles vê a cena e, sem qualquer palavra, arrebata o corpo do animal. Olha-o demoradamente. Afaga-o com carinho de quem acaricia o filho. Mercedes se achega e enlaça a ambos. Chora com o rosto colado ao animal e acolhido no peito de Dornelles. Há uma cumplicidade de sentimentos em relação ao cão morto.
-Era como um filho que não tive.
-Para mim também, reforça Mercedes.
Dornelles, abatido, senta-se na borda da cama e pousa o animal sobre suas pernas.
-Deixa que eu cuido dele.
Dornelles nada fala e o entrega à Mercedes.
Tempos depois ela aparece como o animal lavado, escovado e perfumado. Uma toalha branca o envolve. Dornelles faz desaparecer alguma lágrimas. Seca-as com o lenço. Fica emocionado e agradecido a ela pelo carinho e zelo ao cuidar do canino. Abraça-a e aplica-lhe um beijo na testa.
-Obrigado, Mercedes ! - agradece.
Acondiciona o corpo do cão dentro de uma caixa de madeira. Ele mesmo prepara a massa de cimento, atravessa o quintal e coloca a caixa dentro de um pequeno jazigo à sombra de um frondoso Ipê Amarelo. Fecha o túmulo com a tampa de mármore, na qual lê-se, por sob o retrato em alto relevo de um cão em posição de descanso:
"Ao amigo, filho e companheiro.
Saudade eterna."
Dornelles, genunflexionado, chora copiosamente, amparado por Mercedes ,que o acaricia como a confortá-lo.
Delicadamente a agradece e pede que se vá. Ela, mesmo se mostrando inconformada, obedece.
Ele, senta-se no trono situado no cais. Sorve uma generosa dose de wisk. Essa cena, naquele dia, repetiu-se seguidamente. Era a maneira encontrada para afogar a saudade e anestesiar sua dor.
A S A U D A D E.
No universo, enfatiza-se tão somente o sentimento que une os homens. Ama-se, convence-se, magoa-se e também se separam. Os personagens que figuram neste bate-volta da vida são chamados pelos nomes ou apelidos. Muito pouco se conhece de relacionamento entre um animal e seu dito dono:
"Meu reino por um cavalo" - diz Rei Henrique III.
Dornelles e Dunga representavam esse relacionamento. Pode-se deduzir que pela ausência de um filho, Dornelles projetava esse sentimento para o pequeno cão. E assim era feito. Eram amigos: carne e unha.
Pode-se calcular a dor que afligia e consumia o pobre Dornelles pela perda do amado animal. Vários amigos já tinham falecido, mas nada poderia suplantar a dor causada pela ruptura desse convívio diário. Pode-se afirmar que ele perdera um filho.
Mercedes, em vãs tentativas, procurava tirá-lo desse estado de melancolia. Por alguns dias, após dispensar os seus serviços, ele tornou-se uma figura antipática e reclusa. Contudo o tempo sábio tudo cura. Assim aconteceu. Aos poucos, o impacto foi amainando e parecia que a normalidade voltava à casa.
Mercedes, sempre diligente, atenta e delicada funcionava como um bálsamo que anestesiava a dor de Dornelles. A cicatriz seria marca perpétua, todavia a dor desaparecia à medida que o tempo passava. Contudo, tal qual as estações do ano, havia a presença da primavera e do inverno. A primavera se fazia presente quando das lembranças das diabruras do inesquecível animal. O inverno se apresentava na hora de dormir. Cadê a "trouxa negra" que se alojava bem pertinho dos pés do dono ?
É no coração que se nutrem os sonhos e se perenizam as lembranças.
Dornelles sabia ter um coração, portanto, enquanto se lhe batesse no peito, Dunga faria parte da sua vida. Essa era outra certeza, sim !!
No momento mais agudo do triste fato, Mercedes lhe foi a mão a ampará-lo, a acalmá-lo e a demonstrar verdadeiro sentimento afetivo ao "preparar" o corpo do cão para o enterro. Que outra pessoa se apresentaria como fada naquele momento cruel ? E ela sofrera tanto quanto ele. Não havia qualquer dúvida sobre o seu sofrimento. Essa reflexão indicava que o destino havia escrito um capítulo sobre eles. Dornelles sorriu meloso ! Seus olhos brilharam e seu coração pulou fagueiro. Se já existia todo um clima, embora ele tentasse disfarçar, a partir daquele momento a verdade não poderia ser descartada: ele estava verdadeiramente apaixonado. Tentava questionar e entender esse seu estado emocional. Filosoficamente poderia compreender e justificar esse amor galopante: solidão, ausência de pessoas ao redor e a luz que emanava dos olhos de Mercedes.
A psicologia poderá enumerar diversas teses, mas o coração não procura explicações.
O coração dita a ordem e não mede as consequências.
O que compreender da paixão do padre pela pecadora ?Nada ! Simplesmente, nada ! Pontuando sobre esses argumentos, Dornelles capitulou e reforçou que
"o sonho a sós é apenas um sonho, mas um sonho a dois é o começo da realidade".
Ele estava disposto a provar esse pensamento.
O B E I J O.
Dornelles avança e Mercedes lhe oferece os lábios carnudos. Seus olhos estão semi-cerrados. Seus corpos se colam e seus lábios se fundem. As batidas do coração da fêmea no cio se multiplicam: sente que flutua.
O corpo de Dornelles estremece. Suas mãos recebem, como se fossem troféus, os seios rijos e intumescidos de Mercedes. O êxtase se fez completo. Ambos só si diziam:
"Eu te amo". "Amor". "Amor".
O tempo do amor e do desejo para. O universo não era mais de ninguém. Pertencia somente aos dois amantes.
À noite, quando a lua anuncia o nascer das estrelas, ela beija os lábios do homem amado e lhe diz:
-Tô indo, amanhã estarei de volta. Te amo.
Dornelles pede : - Fica !
_Não posso, amor ! Como me custa ficar longe de ti.
Dornelles permanece lívido e feliz. Há quanto tempo essa felicidade não invadia seu corpo, sua mente e o seu coração? Adormeceu semi-nu, tal qual um deus grego. E sonhou com Mercedes. No dia seguinte, e nos outros, o seu primeiro pensamento chamava-se Mercedes e o último também. Porém ela não apareceu. Dornelles se inquieta e pensa ir à Aldeia. Contém o impulso. Fica na defensiva e se pergunta:
-Será que fui afoito ? Será que ela virá hoje ?
Diversas outras perguntas se foram feitas. Tantas quantos as perguntas, tantas respostas foram anunciadas. Dornelles esperava:
"Não existe tempo quando se ama"
Ele estava seguro dos seus sentimentos. E jurava que ela também.
Sorria prazeroso ao lembrar da sua tarde de amor. Lembrava da silhueta daquele corpo torneado, rijo e quente que o fazia feliz e excitado. Sabia-se rejuvenescido, confiante e se surpreendeu ao flagrar-se assoviando:
"Vou cavalgar por toda a noite
Por uma estrada colorida
Usar meus beijos como açoite
E a minha mão mais atrevida
Vou me agarrar nos seus cabelos
Pra não cair do seu galope
Vou atender aos meus apelos
Antes que o dia nos sufoque
Vou me perder de madrugada
Pra te encontrar no meu abraço
..... ....... .........
E na grandeza deste instante
O amor cavalga sem saber
E na beleza desta hora
O sol espera pra nascer.
(Roberto Carlos)
Para combater a ansiedade fez o que fazia todas as manhãs. Seguia pela areia deixando suas pegadas. Que saudade do já falecido cão. Olhou para trás e percebeu que sua vida, com a ausência do cão, tornou-se vazia. A antiga satisfação havia sumido e por um bom tempo havia uma certa melancolia a lhe moer o corpo e a maltratar sua alma. Pensava ele: "Deus é pai, não é padrasto". A solidão, a angústia e a melancolia se abrandavam na presença de Mercedes. E escreveu em uma folha branca:
Minha Menina.
Sempre que contigo falo, sou invadido por uma alegria interior: rejuvenesço e volto ao passado.
Nessa volta ,tudo se revigora e surge um sorriso gostoso, de boas recordações de fatos vividos e que podem se repetir: basta a vontade de querer. E nesse momento você surge radiante, tal qual uma pêra a ser sugada, comida pelas beiradas e ,no final, numa só abocanhada, ser engolida inteira.
Vejo, num lampejo rápido uma boca ávida a sugar o néctar que escorre sem que a língua, mesmo em movimentos rápidos, não consegue catar. Mesmo assim ,quase todas as gotas que descem em profusão são sorvidas uma a uma. E assim se quer.
Nesse momento ,sinto meu corpo estremecer no simples contato com teu corpo em brasa. Tudo explode num gozo sem fim. Teus lábios se inflamam e o teu corpo a latejar me permite entrar no teu paraíso quente, onde os suspiros nos levam a um mundo de carícia, suavidade e ternura.
Há nesse encontro apenas a figura de dois amantes que não se perguntam, apenas se entregam sem mistério e sem pudor.
A E S P E R A.
Da chegada de Dornelles, do falecimento do cão e da tarde de amor o tempo havia registrado quase um ano. Ele pouco ligava para o tempo decorrido, todavia por usar diariamente o computador para se comunicar com o mundo e com os amigos, era obrigado a manter um calendário real. Assim marcou que Mercedes não comparecia por três dias. Para ele esse diminuto espaço de tempo se eternizava. Resolveu ir buscá-la na Aldeia.
Ao iniciar o trajeto, seu coração explode de felicidade ao vê-la com seus cabelos ao vento. Ela, como se fosse uma gazela, corre para seus braços. Dornelles a abraça como se tentáculos tivesse. Sentia-se um polvo a aprisionar sua presa. Ele a carrega nos braços rumo ao interior da casa. E se entregam mutuamente. Cada um se dando mais ao outro. Dornelles explora as entranhas de Mercedes e a cobre de beijos febris. Ela se contorce e em êxtase, revira os olhos, e explode num orgasmo sem fim. Os corpos vibram e se contraem, porém não se desgrudam. Ato continuo, uma onda de paz envolve os dois corpos e premia o casal que adormece.
Pareciam anjos a descansar à sombra no paraíso.
Horas mais tarde, Dornelles é acordado pelo som:
1, 2, 3 . 3,2,l . 1,2,3. 3,2,1.
Fixa o olhar e mergulha nos olhos verdes de Mercedes. Ela, com a ponta do dedo, fica a contar três sinas gravados no peito do amado: 1,2,3. 3,2,1.
-O que faz ? - pergunta Dornelles.
-Observo que você tem três sinais. Os dois de cima são os pais e o de baixo o filho. - explica Mercedes.
- Minha mãe, explica Dornelles, dizia que esses sinais representavam a Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Divino Espírito Santo. São sinais de nascença. Meu avô o tinha, meu pai também e agora eu.
-È Bonito ! -mansamente exclama Mercedes.
- Se você reparar, verá que parecem com a figura de um triângulo invertido. Minha mãe afirmava que esses sinais são o brasão da família e quem o teria seria muito feliz.
- Você é feliz ? - pergunta Mercedes.
- Principalmente agora que estou com você. -confiantemente afirma Dornelles.
Mercedes sorri satisfeita com o que acabara de escutar. Joga sua coxa por sobre as pernas do amado e se aconchega mais e mais em seu peito.
No pensamento de Dornelles corria a contastação de que ele estava apaixonado pelas meninas dos olhos de Mercedes e pela menina que vivia no corpo da mulher.
- Eu a amo, Mercedes. E isso é pra valer. Não tenho como recuar.
E continua.
- Eu preciso urgentemente combinar algo importantíssimo com você.
Mercedes arregala os dois olhos e franze a testa se preparando para escutar o que ele lhe queria dizer.
- Amor, ontem recebi um e-mail, um pedido de socorro de um amigo muito querido. Ele precisa de amparo, cuidado e muita ajuda financeira e afetiva. Está muito doente e a situação é hiper delicada. Amanhã viajarei para o interior de São Paulo. Preciso que você, durante minha ausência , cuide da nossa casa.
- O que é e-mail ? - pergunta Mercedes.
Dornelles sorri com a ingenuidade dela e lhe responde.
- Infelizmente não lhe pude ensinar sobre computadores, todavia, quando voltar vamos estudar juntos
- Você demora a voltar ?
- Querida, não tenho noção do tempo em que lá ficarei. Tenho duas certezas: a primeira e que eu só voltarei quando meu amigo estiver recuperado. A segunda é que ao voltar você se tornará minha esposa. Você quer ?
Mercedes ao escutar a promessa, beija-o demoradamente e o conforta.
- Use o tempo que for necessário. Estarei à sua espera hoje, amanhã e sempre. A cada dia morrerei de saudade. Sei que chorarei bastante, mas o meu amor será mais forte que a saudade.
- Será duro para mim também. Mas nós teremos todo o tempo do mundo ao contrário do meu amigo Salgado. Não sei se ele durará por muito tempo. Juro que meu último pensamento antes de dormir será seu. E quando acordar, mesmo antes de abrir os olhos, estarei pensando em você.
Os lábios se colam e o os corpos de procuram. O cheiro de sexo se espalha pelo ar. Ambos viajam e se fundem.
A felicidade estava feliz e completa.
Sentados em local privilegiado,
Eros e Afrodite aplaudem entusiasmados o que presenciam.
A V I A G E M.
Dornelles embarca rumo a São Paulo sem se despedir. Achou prudente a medida tomada já que não gostaria de sofrer ou fazê-la sofrer. Não suportaria ver lágrimas nos olhos da sua paixão. Ele também não ficaria à vontade em lhe provocar tristeza , vendo-a chorar. Assim foi feito.
A cada distância vencida seu,coração perdia um pedaço. A amargura o envolvia completamente . A razão dizia : não vá! Todavia, o coração censurava a razão e o fazia lembrar; é seu amigo, portanto a amizade se sobrepõe à mesquinhez e ao egoísmo. Mercedes o ama e saberá esperá-lo. Lembre-se de Penélope a esperar por Ulisses. Esse conflito entre os argumentos foi vencido pelos ditames do coração, surgindo a voz e a força da caridade. Caridade que Deus gosta e o faz ficar perto.
Dias depois chega ao destino. Ele é recebido pela esposa do amigo que agradecida e feliz com a presença serve-lhe um café ralo. Dornelles rapidamente constata a penúria reinante. Pergunta pelo amigo e tem uma resposta desanimadora: -" Ficou na emergência" - diz dona Maricota.
- Podemos ir vê-lo ? - inquire Dornelles.
Com um gesto de cabeça dona Maricota assinala positivamente. Ambos rumam para o hospital. Durante o trajeto, ela faz um ligeiro balanço da vida do casal. O relato o faz furioso. Fica ele sabendo que o amigo sobrevivia com apenas um salário como pensionista do INSS. Mal dava para o mínimo necessário, contudo, com o agravamento da doença, esse mínimo sequer poderia ser levado em conta, já que não cobria o gasto com o básico. Felizmente os vizinhos são solidários e repartem o que têm. Maricota e Salgado viviam da benevolência dos amigos. A situação e o local onde habitavam fez o coração de Dornelles tomar uma decisão drástica: esse quadro de falência familiar teria um final e isso seria "pra ontem".
No hospital a tristeza fica mais evidente e mais cruel e chocante. O amigo não estava em uma enfermaria: estava sobre uma maca de alumínio sem forro. Alguns tubos de soro e outras substâncias pingavam atenuando a dor. Dornelles conteve-se e usou de toda frieza que uma pessoa educada poderia ser revestida. Aproxima-se e se anuncia. O velho amigo, ao reconhecer a voz de quem o chama, abre os olhos e com voz embargada pela surpresa e pelo sofrimento pede: "me tira daqui".
Dornelles procura situar-se do estado clínico do doente. Nada é animador, já que uma transferência para um local mais distante não seria prudente. Havia três pontos cruciais e melindrosos: pleurite, enfisema pulmonar e o mau funcionamento dos rins, o que o obrigava a uma sessão semanal de hemodiálise, feitos em local um pouco mais afastado.
Dornelles não culpou os médicos, tampouco a direção do hospital. Sabia que o grande responsável seria a União, patrona de todos os órgãos da esfera de saúde. Como lutar contra esse monstro de tantas cabeças acéfalas ? Como lutar para obrigar o sistema do SUS ser um pouco menos caótico? Como exigir dignidade para aqueles que pagaram tanto e por tantos anos e que, no final da vida, não são devidamente assistidos ? A prudência e a resignação haveriam de andar juntas. Assim confortou o amigo e a esposa fiel e companheira. Felizmente ele - Dornelles - tinha recursos financeiros, portanto o amigo seria tratado com dignidade. Era o mínimo que poderia oferecer.
Diante do quadro cruel, da tristeza, do sofrimento pelo qual passava Salgado, a razão de Dornelles resmungava:
"Você já fez sua parte ! Deixa que o destino se encarregue do resto. Sua cota de humanidade já se esgotou. Você já provou ser um bom homem. Cuida da sua vida. Volte para Mercedes".
A vida é uma moeda que tem de um lado a figura da cara., do lado oposto fica a coroa. Sabe-se que o inverso do sim é o não. Por esse pensamento, o coração de Dornelles exercia o contrário do que preconizava a sua razão. Assim, ficou ao lado do amigo. A cada dia, o estado de saúde mudava de bandeira. Um dia, uma ligeira melhora. No dia seguinte a morte se mostrava presente. Rondava o leito doméstico, outras vezes se acomodava na cama do hospital. A vigília era constante e o revezamento obrigatório. Durante o dia Dornelles cuidava e vigiava. À noite, Maricota velava o sono inquieto do enfermo. Os dias passavam rápidos. Mais rápidos que os dias, os meses voavam. Nesse lufa-lufa, Dornelles viu incrédulo um Natal chegar e se despedir. Sentia-se esmorecer, todavia não poderia demonstrar desânimo. Era ele o irmão, o companheiro e o grande provedor. Por conta do futuro, tratou de preparar uma condição de vida para o casal Maricota e Salgado. Graças à sua dedicação ao amigo, tornou-se querido na pequena cidade. Aproveitou da generosidade do povo e lhe comprou e mobiliou uma casa . Quem a vendeu não visou lucro maior, pois entendeu o motivo nobre em que se revestia a ação. Esse fato resgatou a dignidade ao casal e deu-lhe conforto. Nada de luxo, mas de excelente qualidade e funcionalidade.
Salgado teve seu quadro clínico agravado por conta de paralisação e necrose em um dos rins. A extração seria emergencial e salvadora. De imediato foi feito o ato cirúrgico. Em decorrência da estripação do órgão, a sessão de hemodiálise tornou-se imprescindível e constante. Incluído na fila de doação para transplante criou-se a expectativa de um chamado urgente, portanto o doente deveria estar pronto para se submeter à operação. Doente estava também Dornelles. Que saudade de Mercedes ! E ele descobriu que saudade doía. Que essa dor só passaria com a presença dela. O que fizera de errado para merecer tanto castigo? Por que essa provação ? Se pudesse, enviaria uma carta ou passaria um e-mail para ela. Decerto seu sofrimento seria atenuado. Sua promessa feita estava sendo cumprida, já que dormia e acordava pensando nela. Nada havia mudado. Pelo contrário ! Seu amor havia ultrapassado o nível da compreensão. E a saudade o castigava a cada tic-tac do tempo.
Chronus voava calçado com as sandálias de Mercúrio.
E assim presenciou a passagem do segundo Natal. Nada houve de especial, apenas a ratificação da fé cristã, mesmo assim, Dornelles presenteou as pessoas mais próximas e alguns crianças carentes do local. Nessa ocasião, havia um alívio banhado pelo sentimento da fraternidade. Assentiu e experimentou que a
lágrima tem o poder de purificar o sorriso.
A V I Ú V A.
Dona Maricota e Dornelles experimentaram, após o Natal, um breve período de paz. A pleurite regredira, propiciando ao enfermo uma respiração mais tranquila, todavia o enfisema pulmonar exercia a complicação habitual. Diz-se que, quando um doente tem súbita melhora, é sinal que o pior está por vir. O povo tem sabedoria. E convém respeitar essa sabedoria que é passada de pai para filho e de boca em boca.
Subitamente Salgado tem um acesso de tosse. Expele uma secreção viscosa e transparente pontilhada de corpos diminutos e avermelhados. A respiração acelera e os olhos se esbugalham. Maricota grita por Dornelles que, de imediato, transporta o amigo rumo ao hospital. Muita tensão, diversas conjecturas e informações desencontradas, porém a notícia fatal não pode ser revertida: Salgado não mais pertencia ao mundo dos vivos.
Maricota deixa cair lágrimas e dá adeus ao marido. Dornelles também se emociona e ampara a viúva. Choram juntos.
A alma de Salgado deixa o corpo frio e rijo e o plano terreno e se transporta para o mundo espiritual. Pelo sofrimento e pela inocência, quando ainda vivo, a sua alma se acomodou no Purgatório. Dentre os que esperavam espiar suas penas estavam Dante e Virgilio. Ambos cuidaram de proteger o recém chegado que pacientemente observa o que abaixo transcorria. Cabe explicar que, no Plano Astral, o tempo não é referência e tampouco pode ser mensurado.
Para Maricota a separação do marido era sofrida, contudo agradecia a Deus o término do martírio. Lembrava-se do adágio popular que afirmava :"Deus dá o frio conforme a roupa". Se Deus determinou, o que contestar ?
Por sua vez Dornelles não contradizia o pensamento da humilde Maricota. Apesar da enorme vontade de retornar para os braços de Mercedes, jamais poderia deixar desamparado o companheiro de velha data, principalmente em se tratando de doença. Sem dúvida, Mercedes haveria de entender. Contudo, conhecendo o espírito feminino, se preparava para ouvir qualquer contestação, caso viesse.
Enquanto esperava a missa de 7º dia, Dornelles tratou de garantir a pensão da viúva pelo INSS. Abriu conta bancária em nome da beneficiária, na qual Dornelles passaria a depositar um complemento financeiro que propiciasse à Maricota uma vida mais tranquila. Passou a custodiar um Plano de Saúde, pois não gostaria de vê-la perambular pelos hospitais públicos em busca de socorro. E assim aguardava as últimas homenagens póstumas ao amigo desencarnado.
Após o descanso do falecido, tanto a esposa quanto o amigo puderam dar ao corpo um alívio. Não seria um sentimento mesquinho ou individual porque esse alívio premiava a todos. O amor pode dividir e privatizar as angústias, todavia o amor tende a socializar as grandes e boas emoções. Após o infeliz desfecho era essa a sensação experimentada por eles
. A lágrima pode unir, mas a felicidade contamina e se expande.
Dornelles caiu na realidade e descobriu que vinte meses se passaram desde a decisão de ajudar o amigo. Foram meses de infortúnio, desespero, dor e saudade. Chegara o momento de viver intensamente o que o destino interrompera. Ao se despedir de Maricota e dos vizinhos, estava convicto de que lá deixara uma robusta e boa semente de amizade. Ao dar adeus a todos, escutou:
-"Ele será muito feliz porque seu coração é de ouro".
-" Parece um anjo, mas tem postura de rei".
Dornelles suspira aliviado. São Paulo começa a ficar longe e ele sente o Cristo Redentor abrir seus braços para recebê-lo. E Mercedes, também.
O R E G R E S S O.
Dornelles desembarca no velho cais. A noite já rendida pela madrugada pintava um quadro de extraordinária beleza.
A lua nova deixava à mostra suas crateras e se intrometia entre o mar e o céu.
Nesse contexto parecia que o
mar queria roubar a lua para si e o céu teimava em furtá-la do mar.
E assim os quadros imaginados iam se transformando indefinidamente, conforme o foco do olhos.
A íris fotografava ávida de prazer e deleite.
Dornelles fixou bem aquele momento e procurou avistar muito ao longe a Colônia de Pescadores. A distância não o permitiu visualizar nada. Despediu-se dos marinheiros e dirigiu-se à sua casa. O silêncio só não era absoluto em decorrência do marulho oriundo da cascata que mergulhava na piscina natural. Um sentimento de melancolia o abraça por inteiro. Mal acomoda suas malas, faz uma ligeira vistoria. Tudo arrumado e limpo. Não havia vestígio recente e constante de presença humana. A geladeira estava vazia. Água e gelo existiam. Na fruteira algumas poucas frutas que amadureciam vagarosamente. Ele não poderia reclamar de nada. Infelizmente sua partida foi abrupta. Pela emergência do pedido não houve tempo para fazer-se uma programação ou um planejamento de médio ou longo prazo. Ele jamais poderia imaginar que essa separação fosse tão longa. Sabia que não seria curta, contudo jamais poderia supor que duraria tão longo tempo. Enfim, o que foi feito, feito estava !
Completamente nu e carregando um copo com dose dupla de wisk, Dornelles mergulha na piscina. Seu corpo se purifica. O prazer estava presente e o corpo agradecia. Programou mentalmente tudo que haveria de fazer nas horas seguintes; recarregaria a bateria do carro, buscaria Mercedes na Vila e supriria sua casa. Revelaria seu amor por Mercedes e a faria sua esposa. Doravante sua vida seria compartilhada, vivida a dois e seria bem feliz.
Seu olhar se fixa no mausoléu do canino. Se vivo estivesse Dunga estaria à beira da piscina a correr e a pular, porém Deus lho havia tirado essa alegria, mas certamente dar-lhe-ia outra. Assim refletia e continuou a aproveitar as delícias da vida.
Dirige-se ao quarto de hóspede e cheira o travesseiro de Mercedes. O perfume muito tênue não lhe afiança ser o mesmo.
Parece uma outra fragrância, do tipo infantil.
Estica-se na cama e excita-se: há quanto tempo não se embriagava com o cheiro de Mercedes. Culpou-se por não haver esperado um pouco mais para viajar. Outra vez ratificou seu pensamento: não sabia da gravidade da doença do Salgado. Ali mesmo adormeceu.
Dornelles acorda bem tarde. Reconhece que há algum tempo não dormira tão bem. Na verdade, voltara ao seu cotidiano. Sorve um café instantâneo e verifica que o carro está pronto para funcionar. Começa a dominar o tempo e a recomeçar sua vida. Seu objetivo único e primordial: Mercedes.
Ruma em direção à Aldeia.
- Boa tarde, Nhá Filó. Cumprimenta a velha que consertava uma rede de pescar.
- Deus ! Doutor Dornelles !! - surpresa, fala Nhá Filó.
-Pensei que o senhor não mais voltaria.
Ambos se abraçam. Nhá Filó afaga o rosto de Dornelles como a confirmar sua presença ali.
- "Vosmicê esmagreceu". - diz . Mas, continua bonitão. E limpa uma lágrima que teimosamente escorrera pelo seu rosto.
- Obrigado. - responde Dornelles. E engata a pergunta:
- Mercedes! Está bem ?. - E para disfarçar completa: E o resto do pessoal ?
-Mercedes foi à cidade vender peixe e os arranjos. O dinheiro que "vosmicê"deixou, acabou. Daí ela resolveu voltar a fazer suas encomendas. Mas, o que houve? Chegamos a pensar em "coisa ruim". Eu e Mercedes tínhamos a certeza que "vosmicê" voltaria. Mesmo assim, nós choramos. Se assente, seu moço, e me conte tim-tim-por-tim-tim. O que houve ?
Dornelles lhe fez um relato resumido da luta. Desculpou-se pela maneira rápida com que decidiu pela viagem. "Pensei que a viagem não seria tão longa".-completa.
Lamentou ter deixado Mercedes sem o apoio financeiro prometido e justificou que não tinha como mandar uma carta ou dinheiro. Afirmou que compraria um celular e que não mais ficaria sem dar notícias. Nhá Filó o abraçou e disse-lhe ao pé do ouvido; "Nós não podemos ficar sem você". Confesso que vi muitas e muitas vezes Mercedes chorar. Coitadinha da "bichinha". E eu sei que era por sua falta. E continuou.
- Os meninos voltam daqui a mais duas luas. Mercedes mais tarde, quase ao cair da tarde. E você fica para o "armoço" e não arreda o pé daqui. Dornelles obedeceu.
Almoçaram e Dornelles bebericou uma "purinha" do chefe da clã. Após o almoço, adormeceu acariciado pelo vento que soprava do mar. É acordado por Nhá Filó que lhe oferece uma caneca de café e lhe diz:
"Mercedes tem um presente pra vosmicê". É a coisa mais linda do mundo!
Dornelles sorridente e surpreso, demonstra satisfação. Ela demora, Nhá Filo ?- pergunta ansioso.
-Deve tá chegando! A menina é valente e decidida. Não para .
Dornelles resolveu voltar à casa e apanhar alguns presentes que, embora sem tempo, conseguiu comprar. No seu íntimo, essa atitude servia para disfarçar a inquietação que o dominava. Seu pensamento perguntava:
-"Um presente para mim"? Estava ele curioso e ansioso.
Sua discrição não o autorizava a contar para Nhá Filó o sentimento que nascera, crescera e que se instalou no seu coração. Estava difícil conter a emoção. O segredo o sufocava. Jogou-se outra vez na piscina e sorveu outra bebida.
Ao vislumbrar o sol procurar se esconder no horizonte, toma o rumo da Aldeia. Seu coração pulsa agitado. Conforme se aproxima do local seu coração acelera. Salta do carro e Mercedes, com lágrimas nos olhos, se joga nos seus braços. Os segundos se multiplicam. Toda aquela inquietação murcha e se transforma em euforia. Não se dizem nenhuma palavra. Os beijos falaram entre si. Falar o quê ? O mundo já sabia que ali existia tão somente um casal apaixonado. Deram-se as mãos. O sorriso de Dornelles se abriu tal qual a flor se abre ao beijo do sereno. Os olhos de Mercedes, mesmo banhados por lágrima, brilhavam mais que a única estrela em céu noturno.
Nhá Filó aparece à porta da choupana. Traz nos braços um pequeno menino, sem camisa e cuja cabeleira se agita ao bailar do vento. Seus olhinhos verdes faíscam e no seu peito três sinais como a representar o pai, a mãe e o filho. Ou , o Pai, o Filho e o Divino Espírito Santo.
Dornelles, atordoado, se desprende de Mercedes, avança e arranca o pequeno querubim dos braços de Nhá Filó. Num gesto teatral eleva a criança como se fosse um troféu a ser oferecido a Deus e, sem hesitação, grita eufórico:
-"Meu filho! É meu filho, Deus amado"!
E de maneira irracional e patética, movido pela euforia, mostra à Nhá Filó e à Mercedes a pequena criança.
- Olha meu filho, Nhá Filó! Meu filho, Mercedes! Nosso filho, Mercedes!
As mulheres compreendem a felicidade de Dornelles que passa a dançar com o filho nos braços. Sem noção do que faz, beija as mulheres e as abraça como a querer dançar com elas ao mesmo tempo. Seu rosto é todo emoção.
Dá-se conta da sua própria felicidade e já começa a raciocinar e olha embevecido para Mercedes e seu coração externa o seu amor ao dizer:
- Eu a amo Mercedes !
E vira-se para Nhá Filó e afirma:Vou me casar com ela. Meu filho é lindo e forte. E outras frases foram ditas e repetidas. Ele estava exultante. Só emoção! Seus olhos choravam felicidade. Só felicidade! E não mais se desgrudava do filho. Fez todos embarcarem no carro e foram para casa. Deixou bem claro sua decisão: o lugar de vocês é comigo. Bem juntinho a mim. E nada nos separará.
No trajeto soube que o bebê chamava-se Pedro, pois foi o dia em que eles se amaram pela primeira vez.
- Lindo nome. É também o nome do apóstolo de Jesus e o patrono dos pescadores-conclui Dornelles.
-No próximo mês, Pedro fará seu primeiro aninho de vida. Eu e Nhá Filó faremos um bolinho e os tios comemorarão junto com Pedro. - confirmou Mercedes. E agora você também estará junto.
Dornelles nada falou, apenas sorria e acariciava a cabeça do pequeno Pedro. Chegaram à casa.
Mercedes e o filho tomaram a posição no quarto principal. Nhá Filó, por vontade própria, se acomodou no quarto de empregada. Rapidamente mãe e filho se entregaram aos braços de Morfeu. Dornelles, a pensamentos mil, conjeturou e elaborou diversos planos. Não pregou os olhos. Sua atenção se fixou no quadro onde
mãe e filho enroscados dormiam profundamente.
Amou mais e mais a ambos. Embevecido ficou a admirá-los até que o sono o vencesse.
A lua já começava a dar vez ao dia e o sol começava a reinar sobre a terra. Os pássaros já beliscavam os frutos maduros, as borboletas beijavam as flores e
a terra suada exalava um doce aroma de terra molhada.
O vento fresco acordava a natureza que se espreguiçava anunciando um dia feliz e calmo. Aqui o destino começa a rascunhar um novo capítulo de vida. Uniam o pai, o filho e a mãe. Não seria a Santíssima Trindade, mas um trio abençoado por Deus e embalado pelo cantar dos anjos.
O R E T R O S P E C T O.
Depois daquele dia ele não mais foi o mesmo. Tal qual o ateu , após vivenciar o milagre, sai da treva e do pecado, assim o milagre de ser pai o transformou. Semelhante aos três Reis Magos a adorar o Menino Jesus, Dornelles contemplava e adorava aquele pequeno ser de cabeleira loira. Repassou todo o seu viver. Viu claramente o rosto da antiga esposa, da sua vida de casado, do carinho e respeito que os uniu durante tantos anos. Reconheceu a fidelidade da companheira. Fidelidade da qual não se sentia merecedor. Da preocupação da esposa com os seus alunos e que não correspondiam aos seus anseios de educadora. Sabia Dornelles da frustração da companheira por não ver no futuro o sonho acalentado ao se tornar professora. Apesar do esforço despendido, da aceitação de um salário vil, de nada valeu a sua vocação compartilhada com milhares de outras colegas no afã de educar. Acreditava que a educação seria a grande e única tocha que iluminaria o caminho obscuro da ignorância e que é a vilã responsável pela desigualdade social, da fomentação do preconceito de mil faces, do crescimento da injustiça, da esterilidade da moralidade, da decadência da instituição chamada família. Todos esses sentimentos eram compartilhados e ratificado pelo nobre Dornelles. Enfim, o casal , dentro do papel representado na sociedade, cuidava em manter essa chama latente através do exemplo dado e da contestação demonstrada. Criticavam a estrutura governamental que astuciosamente não cuidava em modificá-la, pois, se assim o fizesse diminuiria o grupo de eleitores mantido sob o voto de cabresto. Ou daqueles grupos que vendiam seu voto à guisa de uma camiseta, uma dentadura ou uma promessa, jamais cumprida, de algum emprego. Os discursos políticos mudavam de tom; mas, após o resultado do pleito, tudo voltava à velha prática. Enquanto isso, os partidos se multiplicavam e se tornavam sopas de letras e o povo continuava a acreditar no sonho do amanhã. Infelizmente o amanhã continuava a ser igual ao dia anterior. Assim como morrera o sonho da esposa, morrera também o sonho de Mangabeira e Darcy Ribeiro. Assim, no seu íntimo, Dornelles se fez um juramento e haveria de cumprí-lo:
"Pedro seria o sonho da madrasta"
Ao se casar com Mercedes, Dornelles assumiu também o destino do povo da Aldeia. Fez de todos membros da sua família. Agradecia a Deus esse compromisso e essa felicidade. Acolheu e aceitou o desafio de mudar o destino daquela gente de modo simples, sem aspiração e sem sonhos. Seria ele o grande timoneiro a guiar esse barco e fazê-lo ancorar no porto da dignidade humana. Eles mereciam conhecer as letras e a usufruir do benefício do progresso. De serem cidadãos e donos das suas vontades. De poderem errar e recomeçar. De tentar construir um sonho.
Dornelles entendia que o
homem sem sonhos é um ser sem alma.
Seria o mesmo que
O dia sem sol,
A noite sem luar,
O poeta sem a musa,
O homem sem fé,
O cristão sem Deus,
O amor sem saudade.
Acreditava ele no milagre, pois vivia esse milagre, já que fugira da vida e ei-la agora resplandeceste, revigorada e pronta para ser vivida mais intensamente. Passou-lhe o pensamento que Deus o compensava por ter tratado com carinho, ze
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Joãosinho 30
O Brasil, o Carnaval e o Mundo choram a ausência de Joãosinho 30.
Pequeno grande homem ? Não! Simplesmente um gênio. E gênio não se explica. Gênio se aplaude e se venera. Assim foi o pequeno notável. Um artista que sabia misturar o ouro, a prata e a lata. Que sabia mostrar a pobreza e a riqueza em um mesmo quadro da vida. Que sabia misturar a lágrima e o sorriso. Que juntava o pagão e o pecador. O sol e a lua.
João chamdo de 30, mas sque valia mais que 30 quilates. João Rei, João Imperador que - no reinado de Momo - rasgava sua fantasia e se transformava em "escravo dos sonhos" para mostrar ao Mundo que o pobre pode ser rei, imperador e também ser feliz, mesmo que no meio do lixo e junto aos urubus.
João que deixou sua terra natal, onde os sabiás acocorados nas palmeiras cantavam para saudá-lo, pegou carona rumo ao Céu nas asas do Beija Flor.
Amor e Paixão
Amor e Paixão
O Sol flertava com a Manhã. A impetuosidade do Sol impressionava a ingênua Manhã. Para ela, o Sol era o símbolo da masculinidade, do vigor e da potência astral. Ele era o rei!
Apesar de assim pensar, resguardava sua pureza das investidas do amante Sol. Ele, sempre furioso, não a adulava, não lhe era cortês, delicado, mas dizia amá-la com paixão. E ela acreditava.
E ele a fez mulher. Viril, possessivo e depois claramente ciumento tolhia-lhe os passos. Manhã não tinha vida própria. Obedecia sempre e subjugada se lamentava da vida que levava. Mas, tudo sem amor e respeito torna-se frágil, repetitivo e cansativo. Com eles não foi diferente. E a paixão morreu. Ficou apenas a contumácia que se vestiu de arrependimento. Mas, o que fazer? Vida sem vida! Sorriso sem alegria!
Luar – filho da Noite – sentia saudade da Madrugada, irmã gêmea da Manhã. Ele a amava com ternura e zelo e não se envergonhava de pedir ajuda às estrelas para agradar sua amada. Elas se aglutinavam e formavam vários desenhos, originando as constelações de Ursa Maior, Peixes, Pégaso, Órion e Cruzeiro do Sul. Madrugada sorria feliz com a atitude inocente do amado. A cada dia esse sentimento fluía, se sedimentava e os uniam sólida e harmoniosamente.
Ela sentia falta dele e ele não a tirava do pensamento. A osmose sentimental se fazia presente. Assim, o amor se fez. Eles se casaram. Madrugada se vestiu de nuvens e sua grinalda era ornamentada por cintilantes estrelas. A Lua festejava o enlace e ficou durante todo o acontecimento. Os grilos falavam o tempo todo. E o amor os acompanhou por toda a vida.
Manhã vivia triste e chegava até a invejar a felicidade da irmã, todavia, jamais existiria para ambas qualquer semelhança entre Abel e Caim. Havia, sim, a cumplicidade e amor que as uniam e as completavam.
A mãe Lua observava atentamente a vida das filhas. Reconhecia ela o poder, a impetuosidade do Sol, seu ciúme doentio e a sua temperatura inconstante que fazia oscilar seu humor. Humor, não, seu mau humor. Torcia ela, para o bem da filha, que o comportamento do Sol fosse temporário e nessa espera sem fim, o universo ia girando em torno do seu próprio eixo.
Durante todo o ano, recebiam a visita da Primavera, do Outono, do Inverno e do Verão. E nada mudava. A Lua permanecia atenta às atitudes do Sol. E nada mudava. Já cansada de esperar e para proteger sua filha do rancor do Sol, a Lua resolveu enfrentá-lo e criou o eclipse. Toda vez em que o Sol se inflamava demais, a Lua se intrometia entre eles. Assim, a Manhã se protegia do Sol, sob a sombra da Lua.
Fica aqui, a lição de que amor de mãe é infinito.
Que o digam os astros!
sexta-feira, 15 de julho de 2011
Me engana! Eu gosto !
Diante dos últimos fatos noticiados pela imprensa brasileira fico a matutar por que da enorme distância entre o real e o imaginário.
Tento entender o campo real no cenário político nacional, pois sabemos que há aproximadamente 30 partidos , todavia nenhum deles tem identidade básica já que todos não são de extrema-direita, nem de extrema-esquerda. O raciocínio lógico nos leva a classificá-los de “centro”, porém essa qualificação não encontra alento ou lastro dentro do conceito. A mensagem dos partidos torna-se um carimbo; “somos defensores do povo”, pois o “povo se identifica com a proposta do partido”. Ora, não havendo uma definição clara, imagina-se que, diante da mais ampla e diversificada ausência de ideologia, conteúdo programático, lealdade ao país e aos eleitores, os partidos formam uma “sopa de letras”. Nada mais !
O tempero é gerido e dosado pelo Governo Central. Basta uma indicação política aqui, criação de um novo ministério acolá, ampliação de uma secretaria e tudo toma a forma e o sabor que se quer dar ao fato político em evidência. Daí, não haver uma efetiva, coerente e confiável “oposição” que se identifique e faça realçar a vontade do povo.
No imaginário, a “sopa de letras” é posta a cozinhar, mas ao ficar pronta surge uma apetitosa pizza para a qual surge diversos nomes: código florestal, pallocite, mensalão, orçamento sigiloso, campanha política pública, etc, etc. Puxa vida !! Haja pizza !!!
terça-feira, 12 de julho de 2011
Nova Surpresa
Nova surpresa !!!!!
A criação de mais 3 estados brasileiros deve merecer o rótulo de top secret e ser tratado como assunto de Segurança Nacional.
Há de ser investigado – minuciosamente e à exaustão – a quem pertencem a maioria das áreas assentadas, impacto ambiental, área de desmatamento, replantio, tipo de cultura agrícola e toda uma complexa avaliação. Fica a preocupação que se loteie área de pouco valor imobiliário, todavia, no cerne de uma futura desapropriação seja o lote regiamente indenizado e assim enriquecer grileiros inescrupulosos, estrangeiros e clãs oportunistas. Hoje, os acontecimentos na região nos deixam tristes em razão das execuções sumárias dos defensores da natureza, e, por mais que o Governo Central queira nos passar credibilidade de ação, não é esse o sentimento que o povo sente.
Além do mais, surgirão vereadores, deputados, senadores, prefeitos e governadores. Portanto, o assunto é por demais complexo. A quem servirão essas figuras políticas? Ressalve-se que estudos da Faculdade Federal indicam que haverá um déficit na ordem de 4 bilhões de reais anual. Essa sangria financeira terá que ser bancada pela União o que induz a se pensar que haverá corte em custeio, educação, saúde ou outra rubrica qualquer.
Sabemos que a vaidade pessoal – via de regra – faz sucumbir o interesse nacional o que demonstra a falta de patriotismo que deveria estar mais aceso e mais enfatizado. Será que o devaneio político se posicionará acima do interesse do povo ? Será que o delírio político de um partido se irmanará com a insensatez e a irresponsabilidade de um grupo ? O que pode ser bom para “eles”, pode não ser bom para nós.
“Só o futuro poderá obter resposta do destino”
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Adeus, Zé!
Adeus, Zé !
Chamo-te de Zé por carinho, pela tua honradez, pela tua humildade já que tua fortuna pessoal não te fez afastar do povão. Povão que te quer bem e que te respeita. E tu, mesmo não podendo te juntar aos teus, os defendia, quer dentro ou fora do Palácio da Alvorada.Não se deixou corromper pelos maus servidores e sequer pelo poder.
Vá, querido Zé, ao encontrto de DEUS - teu símbolo maior - que te receberá com honras destinadas aos humildes, bons e justos. Leva contigo as esperanças do povo que jamais te esquecerá. Tu mereces o sono dos justos.Cá, ficamos nós a orar pela tua alma, a sentir a tua ausência e a chorar de saudade.
Na tua certidão de nascimento; José Alencar. No coração do povo; Zé coragem.
Publicado ao Jornal o Globo, 31/03/2011, Carta dos Leitores .
quarta-feira, 16 de março de 2011
Ponto Final
Ponto Final.
Pai e filhos andam abraçados. Um caminhar hesitante, trôpego a um destino desconhecido. Param. Um frente ao outro. Se entreolham e seus sorrisos se cruzam. Olham ao redor e confirmam a triste e cruel realidade; os campos, outrora floridos e verdejantes, deram lugar a um quadro devastado, amarelado e pontilhado por animais que se contorcem em tremores mórbidos.
A memória não os faziam esquecer dos antigos verdes campos, das frutas sadias e suculentas. Dos rios límpidos habitados por peixes lépidos e de escamas brilhantes. Das noites claras onde o piscar das estrelas os faziam felizes e sentimentais.
Recordavam dos dias, em que havendo paz no mundo, andavam de bicicletas e a cada tombo ocorrido, que os faziam beijar o solo, sentiam o cheiro de terra em fecunda gestação. Terra que vivia, terra que suava. Hoje, já não se podia dizer o mesmo ! Os frutos cobertos por zinabre exalavam um odor nauseante. Os rios cobertos por peixes disformes, anormais e moribundos. As folhas secas e alguns galhos retorcidos e queimados davam uma visão fantasmagórica. Uma hecatombe, sem dúvida. Os cogumelos jaziam em suas próprias casas. Pelo menos, foram mais felizes que os mutuários das casas quase-próprias.
O atual quadro era o resultado da ganância do homem em busca do poder, das experiências com armas nucleares, do espiar e manipular o genoma em busca do recriar a criatura, do acasalamento embrionário, do desrespeito à natureza e da falta de fé em um DEUS SUPREMO.
Uma luz brilhante acompanhada de um estrondo fê-los olhar para o horizonte distante. Nesse instante, suas mãos se entrelaçam simbolizando um ato de amor fraternal. Foi-se o começo e o meio. Era o fim !
Suas almas sobem unidas abandonando os respectivos corpos chamuscados. E essas almas choraram tanto e tão abundantemente que suas lágrimas se transformaram em chuva. Chuva que regava a terra, dando uma remota esperança de nova vida.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Adeus ao Rei do POP
E lá se foi Michael Jackson Uma estrela que se apaga, uma lenda que se perde na longa história da vida. O show é finito ! Leva em sua bagagem uma coleção imensa de "porquês". Os pop stars são por demais cobrados pelos próprios fãs. Passam de anjos a demônios e vice-versa e tudo isso num piscar de flash. Esse é o preço da fama, que lhes dá o falso rótulo de deuses, que lhes empresta a impressão da imortalidade, que lhes deixa prisioneiro dos conceitos, dos preconceitos e dos rótulos. A fama é efêmera. Saber ser ídolo, ou não saber, eis a questão ! Perdi um ídolo. Minha alma está triste. O meu consolo é que o mundo chora a minha dor.
O Futuro em suas mãos
a época das eleições surgem candidatos movidos à honestidade, eficiência e conhecimento prático e profundo sobre como resolver os problemas do Brasil. Nessa ocasião, todos demonstram preocupação exacerbada sobre a condição de vida do "irmão".Promessas são feitas e a desigualdade humana entre candidato e eleitos desaparece. Eles se completam, se abraçam e posam juntos: não há barreiras. Fica a impressão de que todos estão juntos e que juntos enfrentarão os "moinhos de ventos". Quem no comando está , promete acabar com a pobreza, extinguir as diferenças sociais e devolver a dignidade aos mais carentes. Mas, por que não o fez durante sua gestão? Nesse contexto, o Mal critica o Bem e vice versa. Vá se entender a "política" !! O que se vê é a "baixaria", a menção de "arapongas", etc, etc. Na concepção dos concorrentes fica o ensinamento de Maquiavel : os fins justificam os meios. Nessa discussão - analisada por eméritos cientistas políticos - várias teses são passadas ao povão, mas como esclarecer a massa se lhe falta cultura ? Fica a ociosidade premiada com "bolsa família" e "esmolas sociais" custodiadas pelo governo, que posa de "pai dos pobres", contudo é a classe média que é sangrada por impostos altíssimos para que esses programas sigam em frente: "é cumprimentar com o chapéu alheio". Porém, esse assistencialismo não liberta o povo, pelo contrário, o marca com o "voto de cabresto emocional". Boi marcado pra morrer, povo marcado pra votar.
GATÃO DE IDADE E MEIA
Gatão de idade e meia
O homem em frente ao espelho observa seus cabelos brancos. Franze a testa e vê acentuar não apenas uma ruga, mas dezenas delas. Tenta relaxar a pele e a descontração faz algum milagre, todavia o tempo marcou sua presença. O que o tempo faz, tá feito, não há como retroceder nem remediar : que maldade !
Decide, então, mudar. È agora ou nunca.
Rapidamente veste um conjunto esportivo, calça os tênis e desafia o calçadão. Parece um Robocop desfilando em escola de samba no sambódromo. Uma figura !
Sente o suor a escorrer pelo corpo. Passa o dedo sobre a fronte para expulsar o excesso de suor. Passa uma bela jovem em sentido contrário ao seu trajeto. Traja ela também um uniforme de "marca". " Que bela fêmea" ! Pensa o aprendiz de atleta. Por força do hábito, lança um olhar pra trás e se encanta com o sobe-e-desce daquele bumbum arrebitado. De imediato, dá ele meia-volta e decide acompanhar a "gatinha", mas , aos poucos, vê sua pretensa presa se distanciar. Ele já não tem mais fôlego e pára exausto. Nessa fração de tempo sua consciência faz um balanço da vida.
Olha para sua volumosa barriga - apelidada de "calo sexual" - que o impede de ver o seu surrado, cansado e preguiçoso "pinto". Lastima-se. Recorda, com saudade, da Júlia, Ritinha, Débora, Beth, Glória Maria - não a reporter - e de tantas outras que marcaram sua vida de conquistador, mas que não o domaram. Abre um sorriso de triunfo. Lembra das mentiras e falsas promessas feitas a elas. Não importava a ele o meio empregado para conquistá-las, pois o principal seria ter a "caça abatida", sem escrúpulos ou dó.
Era ele um caçador.
Via passar à sua frente crianças com tranças e sorvetes coloridos, com jogos de plásticos , cornetas e velocípedes. Muitas o chamavam de "tio", e , pela primeira vez sentiu a "poesia" no pronunciar da palavra "paê". Talvez ele o fosse, mas não o sabia. Mercê das suas inúmeras aventuras amorosas, poderia ser pai, porém sem registro. Refletiu:
"É, o tempo passou ! Passou e eu não percebi ! Só pensei no presente e não dei importância ao futuro. Tenho bens materiais, mas falta-me a candura do carinho puro e espontâneo. Do contato da pele com a sua própria pele. Do calor envolvente do seu próprio sangue. De ver sua própria miniatura em tenra idade em frente à forma enferrujada e maltratada pelas intempéries do tempo, mas que deu fruto. Fruto bom e regado de cuidados , preocupações e amor. Nesse seu estado d"alma, a emoção se faz mais forte que a razão irracional e estéril. Neste exato momento, na lua ...
São Jorge, aproveitando a raia longa oferecida pela lua nova, puxa as rédeas do seu lindo corcel branco - que vinha em vigoroso galope - e o faz parar incontinente. O fogoso animal empina-se fazendo pose para algum "paparazzo" disparar seu flash e São Jorge aguça os ouvidos para escutar o diálogo entre duas estrelas fofoqueiras:
- Pobre mortal ! Teve a vida toda para cuidar da vida. Agora já é bem tarde.Diz, uma para a outra.
A amiga de janela e apreciadora de novela responde e conclui:
- O jeito é cuidar da alma, pois o corpo "já era".
Sidney Tito
Sidneytito@yahoo.com.br
O homem em frente ao espelho observa seus cabelos brancos. Franze a testa e vê acentuar não apenas uma ruga, mas dezenas delas. Tenta relaxar a pele e a descontração faz algum milagre, todavia o tempo marcou sua presença. O que o tempo faz, tá feito, não há como retroceder nem remediar : que maldade !
Decide, então, mudar. È agora ou nunca.
Rapidamente veste um conjunto esportivo, calça os tênis e desafia o calçadão. Parece um Robocop desfilando em escola de samba no sambódromo. Uma figura !
Sente o suor a escorrer pelo corpo. Passa o dedo sobre a fronte para expulsar o excesso de suor. Passa uma bela jovem em sentido contrário ao seu trajeto. Traja ela também um uniforme de "marca". " Que bela fêmea" ! Pensa o aprendiz de atleta. Por força do hábito, lança um olhar pra trás e se encanta com o sobe-e-desce daquele bumbum arrebitado. De imediato, dá ele meia-volta e decide acompanhar a "gatinha", mas , aos poucos, vê sua pretensa presa se distanciar. Ele já não tem mais fôlego e pára exausto. Nessa fração de tempo sua consciência faz um balanço da vida.
Olha para sua volumosa barriga - apelidada de "calo sexual" - que o impede de ver o seu surrado, cansado e preguiçoso "pinto". Lastima-se. Recorda, com saudade, da Júlia, Ritinha, Débora, Beth, Glória Maria - não a reporter - e de tantas outras que marcaram sua vida de conquistador, mas que não o domaram. Abre um sorriso de triunfo. Lembra das mentiras e falsas promessas feitas a elas. Não importava a ele o meio empregado para conquistá-las, pois o principal seria ter a "caça abatida", sem escrúpulos ou dó.
Era ele um caçador.
Via passar à sua frente crianças com tranças e sorvetes coloridos, com jogos de plásticos , cornetas e velocípedes. Muitas o chamavam de "tio", e , pela primeira vez sentiu a "poesia" no pronunciar da palavra "paê". Talvez ele o fosse, mas não o sabia. Mercê das suas inúmeras aventuras amorosas, poderia ser pai, porém sem registro. Refletiu:
"É, o tempo passou ! Passou e eu não percebi ! Só pensei no presente e não dei importância ao futuro. Tenho bens materiais, mas falta-me a candura do carinho puro e espontâneo. Do contato da pele com a sua própria pele. Do calor envolvente do seu próprio sangue. De ver sua própria miniatura em tenra idade em frente à forma enferrujada e maltratada pelas intempéries do tempo, mas que deu fruto. Fruto bom e regado de cuidados , preocupações e amor. Nesse seu estado d"alma, a emoção se faz mais forte que a razão irracional e estéril. Neste exato momento, na lua ...
São Jorge, aproveitando a raia longa oferecida pela lua nova, puxa as rédeas do seu lindo corcel branco - que vinha em vigoroso galope - e o faz parar incontinente. O fogoso animal empina-se fazendo pose para algum "paparazzo" disparar seu flash e São Jorge aguça os ouvidos para escutar o diálogo entre duas estrelas fofoqueiras:
- Pobre mortal ! Teve a vida toda para cuidar da vida. Agora já é bem tarde.Diz, uma para a outra.
A amiga de janela e apreciadora de novela responde e conclui:
- O jeito é cuidar da alma, pois o corpo "já era".
Sidney Tito
Sidneytito@yahoo.com.br
O R E T I R A N T E
O RETIRANTE.
A miséria mora no sertão.
O sol estava a pino.
Do alto, mesmo não sendo ainda a metade do dia, o astro rei observava toda a agitação cá embaixo.
Ao longe ecoa uma canção de fé entoada pelos cristãos, beatos e devotos de Padre Ciço. È a procissão serpenteada por homens, crianças e mulheres crédulos que suplicam por chuva: nada muda, sempre igual !
Ao longe ecoa uma canção de fé entoada pelos cristãos, beatos e devotos de Padre Ciço. È a procissão serpenteada por homens, crianças e mulheres crédulos que suplicam por chuva: nada muda, sempre igual !
" No céu, no céu, com minha mãe estarei.
"No céu, no céu, com minha mãe estarei".
"No céu, no céu, com minha mãe estarei".
Em cada mão um terço e noutra uma vela acesa. Velas que se queimam e que também queimam as mãos de quem as protegem e transportam. Mãos que jamais se unem uniformemente em decorrência da calosidade da pele e dos ossos. Ossos deformados pelo atrito do baque entre a enxada e o solo seco e duro. Ação teimosa e esperançosa no cuidar o chão para plantar o broto da cana e o dente de milho. Milho que vira farinha, farinha que se transforma em papa. Papa que mata a fome e que se come lambendo os dedos.
Dedos que enfeitam as mãos. Mãos calosas que aprenderam a alisar os cabelos encarapinhados pela sujeira oriunda da poeira que se eleva do solo tórrido - como se em fuga estivesse. Solo tórrido que bebe sôfrego as lágrimas de quem ainda tem alguma nova angústia ou sofrimento a curar.
Olhos fundos de sofrimento. Olhos sem brilho, mas que tentam ver além do horizonte algo bom e que faça provocar um sorriso na boca banguela. Boca de lábios secos e papilas dilatadas . Papilas que se dilataram aproveitando-se da metamorfose dos órgãos para conhecer e degustar novos sabores além da carne seca, da carne de sol, da tapioca, do peixe defumado e do calango assado. Papilas que se dilataram na busca por água fresca e já enjoada da saliva escassa e sempre igual. Boca sedenta, boca que murmura e suplica, boca que reza e agradece a Deus por qualquer mínimo que se tenha. Boca que também amaldiçoa a própria vida de desventura. Boca que se cala esperando o que o futuro trouxer.
À medida em que o retirante andava o som da procissão se enfraquecia ao contrário da saudade que aumentava. Deixava ele para trás uma mulher grávida e mais um filho barrigudo de olhos remelentos. Os pais alquebrados pelo tempo fariam o papel de provedor. Ele era o único filho vivo. Foram 12 irmãos, assim como foram os 12 apóstolos.
E ele ficou só, tal qual Jesus ! Seguiria pelo deserto não para jejuar, mas em busca de um trabalho na capitá . O trabalho conseguido lhe daria o suficiente para encher a boca e a barriga dos que lá ficaram. Deus - sempre piedoso - haveria de lhe mostrar o caminho do sucesso. Voltaria rico, sadio , com dente de ouro e cordão em volta do pescoço.
Sentiu-se seguido. Parou e olhou para trás. Seu pequeno cão o havia seguido e o encontrara.Trazia na boca uma cobra quase morta.
- Deus meu ! - exclama atônito.
A cobra coral estava morrendo, mas também fizera sua vítima. O seu querido animal já mostrava as pernas bambas. Caiu ganindo ao ser amparado pelo fiel amigo e dono. Espumou pela boca que se escancarava. Os músculos de retesaram e o corpo inerte se fez .
Seu olhar anuviou-se. Nada mais a fazer.
O coração do retirante tomou um baque, disparou e ameaçou explodir. Acariciou o querido animal. Com raiva disparou o hastil no centro da cabeça do réptil que teimava em viver.
- Desgramada ! mardita ! Fez a desgraça no Paraíso e agora rasga meu coração.
Jogou-a para longe, com raiva.
Com as mãos e com uma pedra em forma de concha abre uma pequena cova. Traz o corpo inerte do canino e o embala junto ao peito, como se embala a um filho. Grava na retina a última imagem do animal.
Retira da sua trouxa de viagem uma velha e rota camisa de flanela quadriculada e agasalha o cadáver do cão. Enterra-o e cobre a sepultura com pedras e madeiras velhas e retorcidas. Não se vai. Permanece ajoelhado como a encomendar o corpo ao seu Deus. Está magoado. Cobre o rosto com as mãos. Seu peito explode em soluços. E assim permanece por longos e dilacerantes minutos.
Relembra que o cachorro apareceu em sua casa, surgindo do nada. Ambos se entreolharam. O cachorro abanou o rabo e o coração do homem abriu-se para recebê-lo. Desde então, não mais se separaram. Chamou-o de Relâmpago, pois o achava rápido demais. Assim, essas duas vidas se entrelaçaram.
Sacou da velha peixeira e improvisou uma cruz. Talhou o nome do animal e fincou a cruz sobre a cova. Limpou as mãos na velha , encardida e surrada calça e seguiu em frente. Olhou, uma vez mais, para trás e soletrou:
Dedos que enfeitam as mãos. Mãos calosas que aprenderam a alisar os cabelos encarapinhados pela sujeira oriunda da poeira que se eleva do solo tórrido - como se em fuga estivesse. Solo tórrido que bebe sôfrego as lágrimas de quem ainda tem alguma nova angústia ou sofrimento a curar.
Olhos fundos de sofrimento. Olhos sem brilho, mas que tentam ver além do horizonte algo bom e que faça provocar um sorriso na boca banguela. Boca de lábios secos e papilas dilatadas . Papilas que se dilataram aproveitando-se da metamorfose dos órgãos para conhecer e degustar novos sabores além da carne seca, da carne de sol, da tapioca, do peixe defumado e do calango assado. Papilas que se dilataram na busca por água fresca e já enjoada da saliva escassa e sempre igual. Boca sedenta, boca que murmura e suplica, boca que reza e agradece a Deus por qualquer mínimo que se tenha. Boca que também amaldiçoa a própria vida de desventura. Boca que se cala esperando o que o futuro trouxer.
À medida em que o retirante andava o som da procissão se enfraquecia ao contrário da saudade que aumentava. Deixava ele para trás uma mulher grávida e mais um filho barrigudo de olhos remelentos. Os pais alquebrados pelo tempo fariam o papel de provedor. Ele era o único filho vivo. Foram 12 irmãos, assim como foram os 12 apóstolos.
E ele ficou só, tal qual Jesus ! Seguiria pelo deserto não para jejuar, mas em busca de um trabalho na capitá . O trabalho conseguido lhe daria o suficiente para encher a boca e a barriga dos que lá ficaram. Deus - sempre piedoso - haveria de lhe mostrar o caminho do sucesso. Voltaria rico, sadio , com dente de ouro e cordão em volta do pescoço.
Sentiu-se seguido. Parou e olhou para trás. Seu pequeno cão o havia seguido e o encontrara.Trazia na boca uma cobra quase morta.
- Deus meu ! - exclama atônito.
A cobra coral estava morrendo, mas também fizera sua vítima. O seu querido animal já mostrava as pernas bambas. Caiu ganindo ao ser amparado pelo fiel amigo e dono. Espumou pela boca que se escancarava. Os músculos de retesaram e o corpo inerte se fez .
Seu olhar anuviou-se. Nada mais a fazer.
O coração do retirante tomou um baque, disparou e ameaçou explodir. Acariciou o querido animal. Com raiva disparou o hastil no centro da cabeça do réptil que teimava em viver.
- Desgramada ! mardita ! Fez a desgraça no Paraíso e agora rasga meu coração.
Jogou-a para longe, com raiva.
Com as mãos e com uma pedra em forma de concha abre uma pequena cova. Traz o corpo inerte do canino e o embala junto ao peito, como se embala a um filho. Grava na retina a última imagem do animal.
Retira da sua trouxa de viagem uma velha e rota camisa de flanela quadriculada e agasalha o cadáver do cão. Enterra-o e cobre a sepultura com pedras e madeiras velhas e retorcidas. Não se vai. Permanece ajoelhado como a encomendar o corpo ao seu Deus. Está magoado. Cobre o rosto com as mãos. Seu peito explode em soluços. E assim permanece por longos e dilacerantes minutos.
Relembra que o cachorro apareceu em sua casa, surgindo do nada. Ambos se entreolharam. O cachorro abanou o rabo e o coração do homem abriu-se para recebê-lo. Desde então, não mais se separaram. Chamou-o de Relâmpago, pois o achava rápido demais. Assim, essas duas vidas se entrelaçaram.
Sacou da velha peixeira e improvisou uma cruz. Talhou o nome do animal e fincou a cruz sobre a cova. Limpou as mãos na velha , encardida e surrada calça e seguiu em frente. Olhou, uma vez mais, para trás e soletrou:
"RE - LA - NPO".
O retirante bate estrada. A peleja é longa, árdua e dura. Sequer sabe ele da dimensão da empreitada. Sabe que só tem dois finais; a vida ou a morte. Segue firme. O sol castiga-lhe o couro curtido. Vem a noite. O cansaço se apresenta forte, tão forte quanto a índole do andarilho. A noite - com o luar de prata - suaviza o calor. O caboclo se agasalha. Durante alguns dias a rotina não se altera. De dia é só caminhar. À noite o descanso para o corpo moído, suado e fedorento. Bate o desânimo, mas sabe ele que o desânimo representa a derrota e a derrota é o triunfo da morte.
Sua visão é real. Ao longe avista sinal de fumaça. A casa é pequena, irregular e rude como é bem comum na região. Ouve choro. Apura os ouvidos e confirma o que acabara de escutar. Anuncia-se:
_ Oi ! tem gente em casa ?
Aparece à porta da choupana uma mulher magricela e de cabelos soltos e sujos. Um vestido de chita desbotado e encardido cobre-lhe o corpo frágil, mas deixa à mostra um par de cambitos com inúmeros sinais de sífilis.
_ Se achegue, se for de paz, moço.
A solidariedade do nordestino flui nas veias.
O cabra pergunta o motivo do choro. A mulher o convida a entrar e diz :
_ "Minha mãe" - indica-a. A velha senhora ampara um corpo de bebê, porém já morta.
_ Durou apenas um dia. Veio ao mundo muito fraquinha.Minha filha sequer tinha leite para alimentar a pobrezinha.
_ Que Deus a tenha em seu reino. - diz o viajante, contrito.
O sertanejo ao se deparar com a cena, retira o chapéu da cabeça e o coloca sobre o peito
O respeito intuitivo é outra marca forte do homem rude do agreste.
_ Cadê o pai ? - Pergunta o homem às mulheres.
_ Saiu pro mundo quando dei a notícia de que estava embuchada. Nunca mais apareceu. Se arribou de vez. Peste ruim, seu moço !!.
Rezaram uma Ave Maria. O retirante pede à mãe e à avó permissão para enterrar a criança. Risca na fronte e no peito da criança o sinal da cruz e com este gesto simbólico transforma o pagão em anjo. Faz o que tem que ser feito. De cabeça baixa e olhos cerrados, resmunga: que sina !!
Antes de seguir a caminhada, reparte o pouco que tem; um pedaço de rapadura, um punhado de farinha, uma cuia de feijão e um pedaço de charque. Seu gesto deixa seu coração mais leve, embora magoado pela tragédia ocorrida.
Encara o sol escaldante. Já não sabe para aonde vai. Perdeu o tino e já se sentia o miolo mole. Um calafrio estranho o faz sentar ao pé do velho e desfolhado juazeiro. Olha para o céu azul de imensidão sem fim. Ele sabe que ali mora Deus.
Bem no alto os urubus voam em círculo à procura de alguma carniça. No galho mais alto da árvore, o gavião observa a cobra. Cobra que tenta encantar o rato. Rato que namora os ovos escondidos sob pedras.
È o ciclo da vida !
O andarilho já delira. Vê a imagem dos pais, o sorriso falhado da mulher, se encanta com o beijo do filho e se alegra com a corrida do Relâmpago.
È a roda da vida.
No céu os urubus voam em círculo. Mais abaixo o gavião observa a cobra que tenta encantar o rato, rato que namora os ovos.
È o ciclo da vida. È a roda da vida. È a vida girando. È o girar da vida.
Concorreu em Talentos da Maturidade, edição de 2009.
Sua visão é real. Ao longe avista sinal de fumaça. A casa é pequena, irregular e rude como é bem comum na região. Ouve choro. Apura os ouvidos e confirma o que acabara de escutar. Anuncia-se:
_ Oi ! tem gente em casa ?
Aparece à porta da choupana uma mulher magricela e de cabelos soltos e sujos. Um vestido de chita desbotado e encardido cobre-lhe o corpo frágil, mas deixa à mostra um par de cambitos com inúmeros sinais de sífilis.
_ Se achegue, se for de paz, moço.
A solidariedade do nordestino flui nas veias.
O cabra pergunta o motivo do choro. A mulher o convida a entrar e diz :
_ "Minha mãe" - indica-a. A velha senhora ampara um corpo de bebê, porém já morta.
_ Durou apenas um dia. Veio ao mundo muito fraquinha.Minha filha sequer tinha leite para alimentar a pobrezinha.
_ Que Deus a tenha em seu reino. - diz o viajante, contrito.
O sertanejo ao se deparar com a cena, retira o chapéu da cabeça e o coloca sobre o peito
O respeito intuitivo é outra marca forte do homem rude do agreste.
_ Cadê o pai ? - Pergunta o homem às mulheres.
_ Saiu pro mundo quando dei a notícia de que estava embuchada. Nunca mais apareceu. Se arribou de vez. Peste ruim, seu moço !!.
Rezaram uma Ave Maria. O retirante pede à mãe e à avó permissão para enterrar a criança. Risca na fronte e no peito da criança o sinal da cruz e com este gesto simbólico transforma o pagão em anjo. Faz o que tem que ser feito. De cabeça baixa e olhos cerrados, resmunga: que sina !!
Antes de seguir a caminhada, reparte o pouco que tem; um pedaço de rapadura, um punhado de farinha, uma cuia de feijão e um pedaço de charque. Seu gesto deixa seu coração mais leve, embora magoado pela tragédia ocorrida.
Encara o sol escaldante. Já não sabe para aonde vai. Perdeu o tino e já se sentia o miolo mole. Um calafrio estranho o faz sentar ao pé do velho e desfolhado juazeiro. Olha para o céu azul de imensidão sem fim. Ele sabe que ali mora Deus.
Bem no alto os urubus voam em círculo à procura de alguma carniça. No galho mais alto da árvore, o gavião observa a cobra. Cobra que tenta encantar o rato. Rato que namora os ovos escondidos sob pedras.
È o ciclo da vida !
O andarilho já delira. Vê a imagem dos pais, o sorriso falhado da mulher, se encanta com o beijo do filho e se alegra com a corrida do Relâmpago.
È a roda da vida.
No céu os urubus voam em círculo. Mais abaixo o gavião observa a cobra que tenta encantar o rato, rato que namora os ovos.
È o ciclo da vida. È a roda da vida. È a vida girando. È o girar da vida.
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