quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Z u m b i s


                 
                                                         Z u m b i s

A luz forte do sol acorda o mendigo.
Boceja, coça a barba disforme, encaracolada e fedida. Ao lado seu cachorro desperta, boceja e coça o pelo sujo. Ambos se olham.
O mendigo, por força do hábito, maquinalmente recolhe e dobra o papelão que lhe serve de colchão. Olha ao redor e vê o turbilhão formado pelo público. Todos o evitam, como se não o visse, porém ele não se dá conta do desdém e da rejeição do ser ativo pelo ser carente, desiludido, menosprezado, humilde e sofrido.
O cachorro abana o rabo em sinal de alegria por ver o dono e recebe deste uma coçada na cabeça. Ambos se aceitam como são, não havendo cobrança de qualquer natureza ou compromisso. Há tão sòmente o sentimento de proteção e companheirismo. Simplesmente estão juntos, compartilhando o infortúnio, o pão duro, o biscoito e as pulgas. Não têm paradeiro fixo e também não são navegantes, pois as estrelas não lhes servem de orientação. São eles integrantes do mundo, sem lenço e sem documentos.
Na mente do mendigo surgem figuras e flashes : bela casa, jardim bem cuidado, cena de casamento, amplo escritório, lugares bonitos, casal em cena de sexo explicito, hospital, seringas, enfermeiros e diversas outras cenas. Tudo disforme e sem nexo, principalmente para ele. Sua mente doentia não fixa esses acontecimentos, pois são visões semelhantes às paisagens para quem olha pela janela do trem em movimento. Para ele não há Quintana nem quintais, nem Bilac ou colibris.
_ Uma ajuda, senhor ! - diz o pedinte ao esticar a mão.
Sim ou não têm o mesmo valor. Limpeza e sujeira não têm distinção. Tanto faz , como tanto fez, são sinônimos.
Ao longe um grupo de zumbis vaga sem rumo. São crackeiros que se amontoam em busca do vapor que os degeneram, enfraquecem e matam . Se no homem comum o objetivo é a ascensão social , que lhe trará conforto para o corpo e ao espírito, naquele grupo o objetivo é a sensação de prazer mórbido que exala da pedra maldita. A lata que passa de mão em mão é a socialização da decadência física e moral do usuário, que não pode e não quer fugir do vício. O coração do observador sente e chora solidário ao drama do infeliz irmão.
O mendigo , agora sentado, faz um movimento de gangorra; vai para frente, vai para trás e na cadência do movimento corporal, sua boca abre e fecha como a buscar o ar, ao mesmo tempo em que revira os olhos. Por alguns minutos essa dança se sustenta, período correspondente ao espasmo mental involuntário.
_ Ta dançando, maluquinho ? – pilheria um jovem tatuado.
Na comparação entre o mendigo e os zumbis errantes fica o limite da compaixão humana que vê a degradação física do irmão que tem o corpo insensível à dor, a moral inexistente e o futuro sem perspectiva. Seus corpos são invólucros com data de validade vencida e suas almas delivery voam sem endereço certo.

Sidney Tito


Milagre de Natal

O ambiente era suntuoso. Ricos móveis, quadros de famosos artistas e aparelhos eletrônicos de última geração. Enfim, todo o conforto que o dinheiro pode comprar.
Confortavelmente instalado em um sofá está um senhor, cujos cabelos grisalhos decretam uma idade já avançada. Tudo ali seria invejado por qualquer mortal, porém, sentia-se algo estranho; um certo “ar pesado”. Um bom observador, de imediato, classificaria como nostálgico.
Vamos agora tentar explicar o antes, já que o durante é sabido e o futuro somente o destino poderá dar resposta.
O “coroa” teve uma infância normal. Jogou bola , pulou muros, seguiu palhaços, construiu Judas, fez primeira comunhão e também foi “coroinha” até ser expulso pelo padre da paróquia. Aqui cabe um registro especial, pois foi difícil ao padre compreender a peraltice do moleque; beber vinho português existente na sacristia. Sinceramente não alcanço o pensamento do religioso. Seria por um mero castigo ou porque ele não admitia concorrência ? Levando-se para  o lado satírico prefiro a expressão contenção de despesas, que hoje é usada por todos e  tenta explicar o inexplicável, principalmente a má gestão em órgãos públicos.
Assim, o “coroa” foi crescendo e tornou-se adulto e essa mudança fez com que ele encarasse a vida com mais responsabilidade, porém, viu-se na encruzilhada da vida, onde o ser opta entre o servir ou o se beneficiar. Da escolha passou a agir como um autômato. Seu raciocínio e objetivo visavam, sempre, o lucro. Se emprestasse dinheiro, o juro cobrado era certo. Não tinha tempo para nada. Enquanto seus amigos se divertiam socialmente, ele farejava bons negócios. Assim o tempo foi se alongando, a mocidade fugindo e a velhice chegando.
Hoje o vemos sentado, solitário e rico. Será que valeu a pena tanto sacrifício? Tudo que ele quer, ele paga. Seus ditos amigos desapareceram, talvez em o conhecendo melhor, não aprovavam o seu modo de agir. Falta pouco para o Natal. Mais um ano que se vai, ficando no desejo de todos a esperança de melhoria, quer física, quer material, quer espiritual. Lá fora os foguetes explodem, os sinos repicam e se ouve em profusão músicas natalinas. Alheio a tudo isso o nosso já conhecido personagem pensava, refletia e monologava. Sentia ele uma opressão, uma nostalgia e uma tristeza que o incomodava.
_ Puxa vida, quem sou eu, quanto valho ? Sem nenhuma mulher para tratar-me deste maldito reumatismo, para trazer-me os chinelos e até preparar-me um chá ou servir-me uma dose de licor !
_ E, se fosse pai ? Sem dúvida meu filho me faria correr com ele. Seria um excelente exercício físico  e para as juntas também. Talvez sequer fosse reumático. E o amor ? Como faz falta a amizade sem ônus e como dói a solidão ! Pela primeira vez na vida não deu valor ao dinheiro e redescobriu que era gente. Tarde demais ! Entendeu que precisava dar para receber. A reflexão é a balança da vida e através dela podemos acertar mais vezes e nos auto conhecer. Não só a nós, mas também aos outros.
Um ano depois voltamos ao mesmo local. Não vemos o nosso personagem. O ambiente é o mesmo visto no ano anterior. O mesmo requinte, nada mudado, apenas lá fora uma fina chuva molha a figura querida de Papai Noel. Semelhante ao palhaço , a figura do bom velhinho é seguida por algumas crianças. Uma ou outra criança de colo esboça um beicinho de choro, as demais provocam um frenesi alucinante de pura alegria. Os presentes eram distribuídos por mãos trêmulas. Os lábios vermelhos deixavam passar palavras de felicitações que eram dirigidas aos presenteados. Estes não agradeciam verbalmente, porém os sorrisos expressos gratificavam enormemente o presenteador. Por ser um fato inusitado rapidamente a notícia se espalhou. Pouco a pouco a lista de curiosos aumentava.
_ Quem será ? – pergunta uma fofoqueira de plantão.
Na rua a distribuição de presentes continua. Os meninos estavam verdadeiramente felizes. Repentinamente Papai Noel tropeça e cai pesadamente . As crianças cuidam em levantá-lo, porém o peso é superior à força dos atônitos garotos. Foi preciso a ajuda de adultos. O velhinho foi carregado para dentro de uma casa e colocado sobre um surrado sofá. Alguém aciona o socorro medico público.
Na rua, a mesma fofoqueira queria saber quem era. Mais valia sua curiosidade que o sentimento de ajuda ao próximo. A realidade chama para o fato incontestável de que o mundo está mais cruel e que o coração das pessoas está mais seco, mais endurecido.
Um menino de calça rota abaixa-se e beija o rosto da figura desfalecida. Um dos presentes enxuga-lhe a face e diz – “Tá todo molhado pela chuva”! Porém o menino retruca; “Não é chuva não, moço, é lágrima !
A identidade do Papai Noel fora descoberta. O socorro médico demorou. Só foi possível ao médico atestar a causa mortis . A cerimônia do funeral foi feita por um dos parentes, que respeitou fielmente as vontades do falecido. Ele foi sepultado trajando a roupa de Papai Noel e acompanhado de inúmeros meninos, meninos que ele conquistou em uma só noite, quando teve toda uma vida para amá-los.
Em ação espontânea, os meninos presenteados começaram a cantar de forma desafinada, mas afinados com o sentimento de gratidão:

“ Anoiteceu, o sino gemeu
e a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel vê se você tem
a felicidade pra você me dar.
Eu pensei que todo mundo
fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade eu pensei
Que fosse uma brincadeira de papel
Já faz tempo que eu  pedi
mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade é brinquedo que não tem.”

Ao fechar-se a tumba, lia-se na lápide:

Aqui jaz um homem que soube cobrar dos homens,
mas ficou devendo às crianças”


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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Belle de Jour.




Belle de Jour.

À frente o mar infinito exercia sua magia : mar, misterioso mar !
Dentro do carro, o casal se acaricia. A mão abusada e experiente do homem avança sobre o busto da mulher. Os mamilos são delicadamente pressionados o que provoca na mulher um êxtase de puro prazer.
_ Como eu te amo, amor – diz a mulher languidamente.
A boca carente da fêmea recebe o beijo animal do homem predador. Assim como o côncavo se completa com o convexo, naquele momento, o casal também se completava.
Ela se sentia totalmente realizada. Ele, o mais viril dos homens.
Esse jogo do sexo engana a quem quer continuidade completa. Doce engano ! Com a freqüência do ato, o tempo exerce seu poder. A estatística comprova a curva descendente da performance, pois há o desgaste normal do furor, do deseje e da paixão.
À noite, a mulher em casa, recebe o marido. Pasta na mão, fisionomia cansada, ele se senta e pergunta: “Tudo bem”?
_Amor, tudo bem. Os meninos estão terríveis: dão uma trabalheira.
Pouco falam. A relação é simplesmente morna.
Já no adiantado da noite, a esposa dirige-se ao quarto e encontra o marido a ressonar: fato comum.
_ Graças a Deus – pensa a mulher.
Dias depois a cena inicial se repete, porém o amante questiona; quero você toda para mim.
Não posso ! Sou casada e tenho filhos.
O homem não se dá por vencido e vai além.
_ Não gosto deste amor com dia e hora marcados. Não quero ser apenas seu amante. Você diz que vai resolver sua vida, porém não é o que parece.
Ela retruca.
_ E você já resolveu também sua situação?
Diante da resposta e da cobrança, o diálogo não prossegue. Na despedida Roberto beija a amante e cada um segue seu caminho.
A vida continuava metódica, compassada e previsível: colégio, super mercados, cabeleireiro, academia, shoping, praia e tudo que o dinheiro pode proporcionar. No condomínio de luxo, marido e mulher gozam do privilégio de serem chamados de “Casal Vinte”. Nenhuma suspeição. Ambos queridos, invejados, respeitados e imitados.
O sol acorda preguiçosamente, porém com a transcorrer das horas o rei sol toma coragem e se acende.
O telefone celular toca. No visor aparece o nome de Wagner. Ela atende com enorme sorriso e diz:
_Estava louca de saudade !_
_ Posso te ver ? - pergunta Wagner.
_ À tarde, amor ! Te espero no mesmo local. Até .... !!!!
No horário marcado o novo casal se encontra. Os momentos são tórridos. Corpos quentes e suados. Boca carente. Corpo viril. Sexo animal. Fome de amor. Feras soltas.
A tarde é finda.
A noite expulsa a tarde e assume sua jornada.
O marido retorna do trabalho e como de costume indaga:
_ E os meninos?
A resposta é a mesma: tudo bem com eles! E você ?
_ Reuniões: coisa chata. E some rumo ao banheiro.
Jantam calmamente. Ele a olha nos olhos e diz:
_Você está bonita !
Ao se deitar a esposa leva um copo com água e um comprimido na mão. Finge que engole a pílula. Põe a mão sobre a fronte e diz, queixando-se: enxaqueca terrível.
Deita-se e dá as costas ao marido que, ao ver a cena, também copia o ato da esposa.
A noite dá lugar ao dia.
No quarto cama vazia, fria tal qual o coração da mulher.
Alguns dias depois, já na parte da tarde o instinto da loba aflora. Como já habitual alguém a espera.
_ Ricardo, meu amor, demorei ?
Não houve resposta. A loba geme de prazer.
Vida que segue !!!

Sidney Tito

Sidneytito.blogspor.com.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Você



Você.



Você  que surgiu do nada
Você que me fitou
Você que me encantou
Você que se apoderou de tudo,
Inclusive de mim

Você que me diz amar
Você que me seduziu
Você que me fez amar
Você que me fez pecar

Você que para outro olhou
Você que de mim desgostou
Você que se foi sem nada dizer
Você que me fez chorar
Você que me abandonou

Você que me roubou a 
Você que me fez cair
Que me jogou no chão
Você que me levou a alma
E o coração

Você que se desiludiu
Do outro
Você que agora volta
Dizendo querer ficar
Você que agora chora
Perdão pedindo

Você que já não lembro mais
Passou !
Você que é página virada
Que o tempo desbotou
Você que quer perdão
Você, perdão não dou.

Sidney Tito                                       Junho/2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Lição da Vida


Lição da Vida.




_ O senhor está despedido.
O pobre homem não acreditava no que ouvia. Tremeu da cabeça aos pés e o nervosismo apoderou-se dele. Quis falar, mas os lábios trêmulos se fecharam sentindo a língua presa.
_Mas, “seu doutor ....
_ Não me interrompa. Eu sei o que e melhor para a empresa. O senhor é um funcionário antigo, seu salário é alto, mas a sua produção é a mesma, senão menor.
_Mas, ...
-Nem mas, nem meio mas. Cale-se !
E o diretor continuou a dissertação.
_ Com o seu salário posso contratar dois universitários e os inscrevo como estagiários e fico bem na fita com o presidente. A fila anda ! A vida é assim !
O diretor, homem enérgico e prepotente, não parava de gesticular. Sua voz fluía rápida e sequer respeitava o drama vivido pelo pai honrado e trabalhador e prosseguia.
_ O mundo, graças à tecnologia moderna, não tem lugar para pessoas que não produzem acima da sua própria potencialidade ...
O funcionário já não mais o escutava. Seus pensamentos retrocederam no tempo. As antigas lembranças se fundiam às mais recentes. Nesse estado emocional via um pequeno prédio, paredes mal pintadas, mesas rústicas que contrastavam com outras mais novas de tampos de vidro e de aço.
Mecanicamente limpa os óculos e a testa, onde corria o suor, e, neste exato momento, verificou que a antiga iluminação lhe roubara a visão. Mas, só lhe roubara a visão ? Não !
A sua empresa – ele vivia para ela – roubara-lhe muito mais. Rouba-lhe a viço da juventude, a rigidez dos músculos, a flexibilidade dos nervos e articulações, o tempo aos filhos e o próprio diálogo com a esposa.
Sua lembrança não faz esquecer que esse mesmo diretor que o despedia, pasta moderna de couro, gravata italiana, notebook e telefone celular, não o cumprimentava. Ele se perguntava: “será que a humildade é uma moléstia ? Será que a prepotência une os seres em prol de um objetivo coletivo e mútuo ? As perguntas ficaram no ar. O fato é que a prepotência vencera a humildade. A demissão fora consumada.
Semana seguinte, o diretor no papel de galo pimpão, recebia alternadamente duas novas estagiárias.
_ Bom dia, linda ! Que bom que você veio. Almoçamos hoje, gatinha ?
Á tarde, com a outra nova contratada.
_ Nossa ! Que colírio para os meus olhos !
Porém, a morte que a tudo assistia, colocou o diretor e o despedido em covas bem próximas. E DEUS aplaudiu o último ato.
Sidney Tito-
Sidneytito.blogsot.com

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Agradeço aos meus seguidores. Espero ter correspondido à espectativa de vocês. Obrigado.
Vamos divulgar. No momento estou me "energizando". Valeu, gente !!!!

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Gotas de Amor



Gotas de Amor.




O olhar de um cruza com o olhar do outro.
Um frio corre pela espinha da mulher. Com o homem não foi diferente. Um frente ao outro.
O tempo para! As lembranças retrocedem instantaneamente. As rugas do rosto da mulher desaparecem, seus cabelos prateados criam uma áurea mágica e hipnotizadora. O homem sorri ;

 “estás linda, tal qual apareces nos meus sonhos”.

A pequena calvície também se desfaz no homem;
 “estás muito elegante, como de sempre !
 Ele também sorri.
Ele, sem tirar os olhos da mulher, murmura;

 “esqueci até de mim, mas não esqueci de ti”.
 E continua;
 “ a saudade e a dor da separação bateram muito no meu corpo e também na minha alma”. Sofri muito.

Suas mãos se apertam delicadamente. As outras mãos se sobrepõem em forma de concha. As alianças de casado faíscam.
Os olhos murcham. O sorriso de ambos se desfaz e os cenhos se enrugam. Fitam-se profunda e melancolicamente.
As mãos se separam. Nada dizem.
Os passos seguem em direção oposta. Algumas lágrimas descem face abaixo. Outra vez a alegria sucumbe, dando vez à tristeza.
Não tinha que ser!

Sidneytito.blogspot.com
Maio/2012.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O que eu quero da Vida !

O que eu quero da vida !

Quero aspirar o primeiro sopro de vida, quero sugar o colostro vital, quero sentir o calor da pela da minha mãe, banhar-me nas lágrimas de felicidade vertidas daqueles olhos brilhantes , quero sentir a proteção dos braços de meu pai e quero escutar a frase: “meu filho, eu te amo”.

Quero deixar de ser pagão para ser cristão



O que eu quero da vida !

Quero correr livre pela areias da praia, sentir a maciez da relva, sentir o toque suave da brisa, correr em busca da lua sobre a montanha, quero comer e me lambuzar de chocolate e lamber os dedos, quero dormir com o meu cachorro e com ele dividir o último biscoito.



O que eu quero da vida !

Quero conversar com Deus e perguntar por que não me deixam andar sozinho, porque não posso comer sorvete antes do almoço, porque não posso brincar com a mangueira quando estou resfriado e por que não posso dar leite ao coelho?



O que eu quero da vida !

Quero sentir o sabor do primeiro beijo, sentir saudade da colega da escola, quero ver filmes até tarde, varando a madrugada, quero comer pizza com coca-cola e tudo que o médico condenar, quero usar roupas de marca e ter um laptop maneiro.



O que eu quero da vida !

Ganhar o primeiro salário, ser o top da gang, quero andar de motoca envenenada, quero ter “liberdade” de gente grande, quero ser rebelde sem causa, assistir todos os festivais, quero dormir com a namorada em quarto fechado.



O que eu quero da vida !

Quero ser o marido da mulher amada, quero sentir o aroma do primeiro novo carro, quero o sonho da casa própria, quero curtir o meu primeiro filho, quero mudar de vida, ser reconhecido e se possível aplaudido.



O que eu quero da vida !

Quero o respeito devido aos velhos, quero envelhecer com dignidade, respeitar os meus limites, escutar meus netos chamar-me “vô”, de com eles brincar e deseducá-los Quero ir á missa todos os domingos e repetir a leitura do jornal anterior.



O que eu quero da vida !

Quero exercer o poder do esquecimento, da teimosia e de achar-me sábio e sem pecado. De dizer “eu nunca fiz isso”, “ah, como está o mundo de hoje”,”no meu tempo não era assim”,”eu sei como isso vai acabar”.



O que eu quero da vida!

Simplesmente que a vida me queira.



Sidney Tito – Maio 2012.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Zorra Poética


Zorra Poética.





O peixe no aquário
Glup, glup, glup
O gato na espreita
Miau, miau, miau
O peixe olha o gato
Glup, glup, glup
O gato lambe os beiços
Miau, miau, miau
O aquário se quebrou
Glup, glup, glup
Miau, miau, miau
Surge o cão policial
Auau, auau, auau
A velha com a vassoura
Zap, zap, zap
A zorra se acabou
A velha puxa o sono
Ronc, ronc, ronc

Sidney Tito
Abril/2012


quarta-feira, 18 de abril de 2012

Rainha do Mar

Rainha do Mar.




Como é bom beber o vento
No bailar à beira mar
Que nos faz dolente
Que nos faz cantar
Como é bom fitar o mar
Que brinca de pula-pula
Em cada onda que vai
Em cada onda que vem
Fica sempre o convite das ondas
Para com o vento brincar
Quer para um curto bailar
Quer para um simples assobiar
E neste mundo tão lindo
De profundezas sem fim
Brilha de brilho intenso
A linda mulher sereia
A dama do mar
A Rainha Yemanjá.    

Sidney Tito
Abril/2012.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Amanda


A M A N D A

Filha amada, filha do sonho sonhado. Fruto de um amor que virou paixão. Paixão que excede o próprio sonho. Sonho que só tem uma explicação dentro de um só coração feito de dois corações.
Vejo teu rosto moreno, onde se acentuam duas covinhas que papai enche de beijos. De um lado, olhar de mãe, observa dissimuladamente a cena. Enciumada, some ligeira, deixando no ar um perfume de primavera.
Vez por outra flagro mamãe a te beijar a boca, como a imitar dois peixinhos a limpar o aquário. Eu, do mesmo modo que mamãe, deixo o local rapidamente e também enciumado.
Esses momentos de "ciúme possessivo" terminam quando os três rolam pela cama e riem puros e fartos. Um culpando o outro e tu, filha amada, abraçando os dois.  É quadro lindo de ser visto.  Tenho certeza de que a natureza também aplaude e sorri ; é a dimensão absoluta do amor e Deus aproveita o cenário pinta o quadro  e mostra aos anjos.
Filha sonhada e querida, sabes que és filha e fruto de uma imaginação, de um desejo sonhado e não realizado. Sabes também que poderias "ter sido real", pois a imaginação tudo faz e desfaz. Assim como fostes fecundada durante a madrugada _ período preferido dos poetas, apaixonados e loucos _ nesse mesmo tempo te vi galopando um cavalo alado. Tu seguias por uma estrada prateada rumo à lua. Estendi os braços, mas não te pude prender. E assim, foi_se mais um "pedaço de mim". Chorei tanto e tanto que sequei as próprias lágrimas. Hoje, meus olhos são opacos e sem brilho de alegria.
Todas as noites fico a fitar o céu, pois há mais uma estrela a iluminar o espaço preferidos dos enamorados. Mesmo nas noites nubladas te vejo a cintilar para mim. A lua também tem ciúmes de ti, porque ela é bela, mas não brilha e não tem luz própria.
Hoje sou acompanhado apenas pela amiga "esperança", a única que me entende e que não briga comigo. Portanto, não sou solitário. Esperança de que algum dia, em algum ano, em qualquer milênio ou outro estado astral aconteça um "milagre divino" que te transforme em uma "estrela cadente" e caias bem dentro do meu coração, formando uma tatuagem sublime e eterna. Tatuagem com  a  letra  A de Amanda,  de amor - símbolo  de  quem  soube  amar e foi amado –



Pequeno trecho do Livro Contos D’Alma ,  ainda não editado.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que será do amanhã ?


O Brasil continua o mesmo: apenas modulando o volume do som das notícias e impulsionado por propaganda formatada com o intuito de mostrar “progresso social”. Entra um político, sai outro! Fazem-se promessas já ”tão antigas e fora de moda”, mas são feitas e mesmo assim fazem efeito no intelecto(?) do leitor.  Porém, logo, logo, caem no esquecimento de quem fez e de quem quis acreditar. Explodem os escândalos e as autoridades prometem punição exemplar para os culpados, mas imediatamente os  “suspeitos” são locados em outros setores até o “caso esfriar”. Coisas de amigos ! É o caso de se dar a Jader o que é de Barbalho.
A Lei esbraveja em forma de proteção ao povo – ato teatral – que encanta os próprios políticos. Os  aplausos ecoam nas diversas câmaras. Flashs, notícias , e manchetes. Os políticos se ufanam e apontam o dedo indicador para o lado oposto em busca do culpado. Abrem-se CPI’s com duração efêmera e inócua. No dia seguinte tudo será como foi antes !
“O que será do amanhã ? Como vai ser o meu destino?
Publicado no Jornal O Globo - Carta dos Leitores 08/01/2012

Tatiana

T A T I A N A.

Uma história real.


Hoje foi mais um dia na tua vida.
Desde cedo, acompanhei tua atividade- haja geleia de mocotó, iogurte  e mel.  
Estavas tu a correr, brincar, sujar o chão e as paredes recém pintadas. Flagrei-te a lambuzar o rosto com caldo de feijão. Depois, com chocolate que se derretia em função do calor. Observei  pedires “cocola” e “coito” por satisfação e gulodice. E o teu pintinho de estimação ? Como tu o maltratas no afã de acariciá-lo ! De nada adianta o seu piado de socorro. Enfim, filha amada, acompanhei atentamente o teu dia e, agora, dormes ! Um anjo a dormir, pura e sem pecado !
Não sei o que se passa na tua mente inocente, pois dormes placidamente. Vez por outra, aflora em teu lindo rosto um sorriso. Sem dúvida, sonhas com algo bonito. E, enquanto sonhas, fico eu a relembrar o dia em que tu vieste para enfeitar o mundo.
Lembro que me sentia bastante feliz. Na realidade, não bastante feliz, e sim, radiante. Via no rosto da tua mãe a expectativa pela tua chegada. Puxa vida ! Quantos planos fizéramos ! Eras tu ainda um minúsculo embrião. Depois viraste um feto comprovadamente e aí tudo ficou mais real. Durante vários meses acompanhei o teu desenvolvimento, escutei o teu coração e tu crescias. Crescias e tomava forma de gente. E eu te amava e te esperava. Imaginava que parecerias comigo – egoísmo perdoável de pai. Pintava-te ao  meu modo. Já te via criança e também mulher, pois , mesmo não sendo possível saber o sexo, sabia-te menina. Embriagava-me em ti.
E chegou o dia do teu nascimento. Estava eu atento a tudo e a todos. Nada se passava desapercebido. Quis assistir ao parto, mas faltou-me coragem. Preferi, nervosamente, esperar colado à porta da sala cirúrgica. Os minutos corriam céleres. Multiplicavam-se geometricamente. Mesmo assim, que demora !!
_ Você é pai ! – falou o médico.
Meu coração explodiu  de contentamento. Pulei, vibrei, fiquei cego de delírio. Dancei um ritual desconhecido. Por alguns segundos fui louco, porém..
_ É uma menina muito pequena e corre sério risco. – O médico transmitiu tal notícia pausadamente. Nesse exato momento, senti-me como uma bola espetada por um alfinete. Não estourei, todavia, enquanto escutava, ia murchando, murchando. Toda a alegria, todo o sonho acalentado foi minguando e eu, minguando também, e reduzindo-me a algo ínfimo.
Após algumas horas, depois de mentir a tua mãe, consegui ver-te. O quadro foi horrível. Dilacerante, mesmo. Lá estavas tu, arquejante,lutando para respirar, respirar para viver. E eu, inútil, sem forças para gritar, para lutar por ti, entregue e vencido.
Não quis acreditar. Recusei-me a aceitar tal fato. Meus olhos lacrimejaram. Duas, três, quatro... Não sei quantas lágrimas brotaram. Não sei o que senti. Sei apenas que meu coração ficou minúsculo e o tempo parou.Anestesiado fiquei. Imóvel. Todavia, e apesar de tudo, eu te achei bela. Comparei-te a uma raridade de porcelana chinesa,  tal a mimosidade das tuas feições. Pareceu-me que tu havias sido feita  com um finíssimo pincel. Nesse momento, perguntei-me: O que houve ? Qual o erro no pré-natal ? Lembro-me de que  gastei o que não tinha. Pedi empréstimo para poder dar a ti o melhor em alimentação uterina, através da tua mãe. Dei a ela a tranquilidade necessária para que tu  nascesse sadia, rosada e robusta.Mas, nada disso acontecera. E DEUS ? Por que assim me castigava? Por que  fazer-te anjo antes de fazer-te minha filha ? Briguei com ELE. Blasfemei uma vez, duas vezes e desafiei o Céu !
Horas mais tarde, a medicina tirou-me a esperança de ser teu pai. Chorei copiosamente. Depois  elevei meus pensamentos a DEUS. ELE condoeu-SE com meu sofrimento e deu-me a confirmação de que ELE existia e cuidava de mim. Eu entreguei tua vida e o  teu destino ao Pai Supremo. E assim, filha minha, tua vida foi salva. Deus permitiu, para felicidade minha e da tua mãe, que nós te embalasse nos braços e te pusesse sempre bem pertinho do  nosso coração.
Bem,  eu poderia enumerar todas as tuas virtudes, tuas qualidades e também teus defeitos. Poderia pintar-te tal qual uma santa simplesmente, partindo da formosura do teu lindo rosto. Poderia dizer, também,  que tu és um diabinho calcando-me sobre as tuas peraltices, tuas manhas e birras. Sob esse aspecto, diria que tu saíste à semelhança da tua mãe e, para não deixar a santa sogra no ostracismo, reforçaria que tu tens a língua tão venenosa quanto a dela. Mas, não é isso, filha! Tem algo muito mais profundo que tudo isso. Peço-te perdão. Coloco-me a julgamento e aceito o papel de réu. Sem dúvida, se tivesses o conhecimento real das coisas, perguntaria : Por que se julga culpado ? Por que me pedes perdão ? Você é réu de quê? Cometeu você algum crime? E eu responderia  que sim.
Minha querida, tu bem sabes que és tudo que eu tenho. Que és a essência boa da minha vida. Que eu verdadeiramente te amo, mas, talvez tu não saibas que eu tentei planejar tua vinda  para este mundo cão, este mundo cruel. Esperava poder preparar-me financeiramente e psicologicamente  para receber-te. Contudo, não foi bem assim que aconteceu, pois, no ato da tua concepção, não pensei em ti. Pensei simplesmente em satisfazer-me. Um ato a mais para provar que sou homem. Que posso ser amado em troca da satisfação sexual que posso proporcionar. Que sou o “tal”. E isso não acontece somente comigo. Todos os homens assim agem, mas poucos têm a coragem de admitir. Somos animais piores que os irracionais. E por sermos assim, nós mesmos formamos um mundo de misérias, de sofrimentos e de angústias. Constatamos diariamente atos contra os quais nos revoltamos. É duro vermos crianças desajustadas, mendigos a esmolar, assassinos a matar, ladrões a furtar e por aí afora. E nós continuamos a engravidar sem nos preocuparmos com o futuro dessas crianças.
Muitos são os que hão de condenar essas vítimas da sociedade, todavia os culpados por essa situação são os próprios pais, pais que não tiveram a nobreza de amar seus filhos antes da concepção, que não tiveram a sensatez de lhes preparar uma base forte para sobreviverem e que não souberam ser homens verdadeiros quando do ato da fecundação.Filha, é por tudo isso que eu te peço perdão. É bem verdade que eu dou a ti tudo que posso, mas tu poderias fazer parte dessa parcela de infelizes criaturas que povoam a terra. Tenho certeza, filha querida, que serei compreendido e perdoado, mas aí vai uma verdade que tu ignoras: sou filho dessas circunstâncias.