Z u m b i s
A luz forte do sol acorda o mendigo.
Boceja, coça a barba disforme, encaracolada e fedida. Ao lado seu cachorro desperta, boceja e coça o pelo sujo. Ambos se olham.
O mendigo, por força do hábito, maquinalmente recolhe e dobra o papelão que lhe serve de colchão. Olha ao redor e vê o turbilhão formado pelo público. Todos o evitam, como se não o visse, porém ele não se dá conta do desdém e da rejeição do ser ativo pelo ser carente, desiludido, menosprezado, humilde e sofrido.
O cachorro abana o rabo em sinal de alegria por ver o dono e recebe deste uma coçada na cabeça. Ambos se aceitam como são, não havendo cobrança de qualquer natureza ou compromisso. Há tão sòmente o sentimento de proteção e companheirismo. Simplesmente estão juntos, compartilhando o infortúnio, o pão duro, o biscoito e as pulgas. Não têm paradeiro fixo e também não são navegantes, pois as estrelas não lhes servem de orientação. São eles integrantes do mundo, sem lenço e sem documentos.
Na mente do mendigo surgem figuras e flashes : bela casa, jardim bem cuidado, cena de casamento, amplo escritório, lugares bonitos, casal em cena de sexo explicito, hospital, seringas, enfermeiros e diversas outras cenas. Tudo disforme e sem nexo, principalmente para ele. Sua mente doentia não fixa esses acontecimentos, pois são visões semelhantes às paisagens para quem olha pela janela do trem em movimento. Para ele não há Quintana nem quintais, nem Bilac ou colibris.
_ Uma ajuda, senhor ! - diz o pedinte ao esticar a mão.
Sim ou não têm o mesmo valor. Limpeza e sujeira não têm distinção. Tanto faz , como tanto fez, são sinônimos.
Ao longe um grupo de zumbis vaga sem rumo. São crackeiros que se amontoam em busca do vapor que os degeneram, enfraquecem e matam . Se no homem comum o objetivo é a ascensão social , que lhe trará conforto para o corpo e ao espírito, naquele grupo o objetivo é a sensação de prazer mórbido que exala da pedra maldita. A lata que passa de mão em mão é a socialização da decadência física e moral do usuário, que não pode e não quer fugir do vício. O coração do observador sente e chora solidário ao drama do infeliz irmão.
O mendigo , agora sentado, faz um movimento de gangorra; vai para frente, vai para trás e na cadência do movimento corporal, sua boca abre e fecha como a buscar o ar, ao mesmo tempo em que revira os olhos. Por alguns minutos essa dança se sustenta, período correspondente ao espasmo mental involuntário.
_ Ta dançando, maluquinho ? – pilheria um jovem tatuado.
Na comparação entre o mendigo e os zumbis errantes fica o limite da compaixão humana que vê a degradação física do irmão que tem o corpo insensível à dor, a moral inexistente e o futuro sem perspectiva. Seus corpos são invólucros com data de validade vencida e suas almas delivery voam sem endereço certo.
Sidney Tito

