quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Z u m b i s


                 
                                                         Z u m b i s

A luz forte do sol acorda o mendigo.
Boceja, coça a barba disforme, encaracolada e fedida. Ao lado seu cachorro desperta, boceja e coça o pelo sujo. Ambos se olham.
O mendigo, por força do hábito, maquinalmente recolhe e dobra o papelão que lhe serve de colchão. Olha ao redor e vê o turbilhão formado pelo público. Todos o evitam, como se não o visse, porém ele não se dá conta do desdém e da rejeição do ser ativo pelo ser carente, desiludido, menosprezado, humilde e sofrido.
O cachorro abana o rabo em sinal de alegria por ver o dono e recebe deste uma coçada na cabeça. Ambos se aceitam como são, não havendo cobrança de qualquer natureza ou compromisso. Há tão sòmente o sentimento de proteção e companheirismo. Simplesmente estão juntos, compartilhando o infortúnio, o pão duro, o biscoito e as pulgas. Não têm paradeiro fixo e também não são navegantes, pois as estrelas não lhes servem de orientação. São eles integrantes do mundo, sem lenço e sem documentos.
Na mente do mendigo surgem figuras e flashes : bela casa, jardim bem cuidado, cena de casamento, amplo escritório, lugares bonitos, casal em cena de sexo explicito, hospital, seringas, enfermeiros e diversas outras cenas. Tudo disforme e sem nexo, principalmente para ele. Sua mente doentia não fixa esses acontecimentos, pois são visões semelhantes às paisagens para quem olha pela janela do trem em movimento. Para ele não há Quintana nem quintais, nem Bilac ou colibris.
_ Uma ajuda, senhor ! - diz o pedinte ao esticar a mão.
Sim ou não têm o mesmo valor. Limpeza e sujeira não têm distinção. Tanto faz , como tanto fez, são sinônimos.
Ao longe um grupo de zumbis vaga sem rumo. São crackeiros que se amontoam em busca do vapor que os degeneram, enfraquecem e matam . Se no homem comum o objetivo é a ascensão social , que lhe trará conforto para o corpo e ao espírito, naquele grupo o objetivo é a sensação de prazer mórbido que exala da pedra maldita. A lata que passa de mão em mão é a socialização da decadência física e moral do usuário, que não pode e não quer fugir do vício. O coração do observador sente e chora solidário ao drama do infeliz irmão.
O mendigo , agora sentado, faz um movimento de gangorra; vai para frente, vai para trás e na cadência do movimento corporal, sua boca abre e fecha como a buscar o ar, ao mesmo tempo em que revira os olhos. Por alguns minutos essa dança se sustenta, período correspondente ao espasmo mental involuntário.
_ Ta dançando, maluquinho ? – pilheria um jovem tatuado.
Na comparação entre o mendigo e os zumbis errantes fica o limite da compaixão humana que vê a degradação física do irmão que tem o corpo insensível à dor, a moral inexistente e o futuro sem perspectiva. Seus corpos são invólucros com data de validade vencida e suas almas delivery voam sem endereço certo.

Sidney Tito


Milagre de Natal

O ambiente era suntuoso. Ricos móveis, quadros de famosos artistas e aparelhos eletrônicos de última geração. Enfim, todo o conforto que o dinheiro pode comprar.
Confortavelmente instalado em um sofá está um senhor, cujos cabelos grisalhos decretam uma idade já avançada. Tudo ali seria invejado por qualquer mortal, porém, sentia-se algo estranho; um certo “ar pesado”. Um bom observador, de imediato, classificaria como nostálgico.
Vamos agora tentar explicar o antes, já que o durante é sabido e o futuro somente o destino poderá dar resposta.
O “coroa” teve uma infância normal. Jogou bola , pulou muros, seguiu palhaços, construiu Judas, fez primeira comunhão e também foi “coroinha” até ser expulso pelo padre da paróquia. Aqui cabe um registro especial, pois foi difícil ao padre compreender a peraltice do moleque; beber vinho português existente na sacristia. Sinceramente não alcanço o pensamento do religioso. Seria por um mero castigo ou porque ele não admitia concorrência ? Levando-se para  o lado satírico prefiro a expressão contenção de despesas, que hoje é usada por todos e  tenta explicar o inexplicável, principalmente a má gestão em órgãos públicos.
Assim, o “coroa” foi crescendo e tornou-se adulto e essa mudança fez com que ele encarasse a vida com mais responsabilidade, porém, viu-se na encruzilhada da vida, onde o ser opta entre o servir ou o se beneficiar. Da escolha passou a agir como um autômato. Seu raciocínio e objetivo visavam, sempre, o lucro. Se emprestasse dinheiro, o juro cobrado era certo. Não tinha tempo para nada. Enquanto seus amigos se divertiam socialmente, ele farejava bons negócios. Assim o tempo foi se alongando, a mocidade fugindo e a velhice chegando.
Hoje o vemos sentado, solitário e rico. Será que valeu a pena tanto sacrifício? Tudo que ele quer, ele paga. Seus ditos amigos desapareceram, talvez em o conhecendo melhor, não aprovavam o seu modo de agir. Falta pouco para o Natal. Mais um ano que se vai, ficando no desejo de todos a esperança de melhoria, quer física, quer material, quer espiritual. Lá fora os foguetes explodem, os sinos repicam e se ouve em profusão músicas natalinas. Alheio a tudo isso o nosso já conhecido personagem pensava, refletia e monologava. Sentia ele uma opressão, uma nostalgia e uma tristeza que o incomodava.
_ Puxa vida, quem sou eu, quanto valho ? Sem nenhuma mulher para tratar-me deste maldito reumatismo, para trazer-me os chinelos e até preparar-me um chá ou servir-me uma dose de licor !
_ E, se fosse pai ? Sem dúvida meu filho me faria correr com ele. Seria um excelente exercício físico  e para as juntas também. Talvez sequer fosse reumático. E o amor ? Como faz falta a amizade sem ônus e como dói a solidão ! Pela primeira vez na vida não deu valor ao dinheiro e redescobriu que era gente. Tarde demais ! Entendeu que precisava dar para receber. A reflexão é a balança da vida e através dela podemos acertar mais vezes e nos auto conhecer. Não só a nós, mas também aos outros.
Um ano depois voltamos ao mesmo local. Não vemos o nosso personagem. O ambiente é o mesmo visto no ano anterior. O mesmo requinte, nada mudado, apenas lá fora uma fina chuva molha a figura querida de Papai Noel. Semelhante ao palhaço , a figura do bom velhinho é seguida por algumas crianças. Uma ou outra criança de colo esboça um beicinho de choro, as demais provocam um frenesi alucinante de pura alegria. Os presentes eram distribuídos por mãos trêmulas. Os lábios vermelhos deixavam passar palavras de felicitações que eram dirigidas aos presenteados. Estes não agradeciam verbalmente, porém os sorrisos expressos gratificavam enormemente o presenteador. Por ser um fato inusitado rapidamente a notícia se espalhou. Pouco a pouco a lista de curiosos aumentava.
_ Quem será ? – pergunta uma fofoqueira de plantão.
Na rua a distribuição de presentes continua. Os meninos estavam verdadeiramente felizes. Repentinamente Papai Noel tropeça e cai pesadamente . As crianças cuidam em levantá-lo, porém o peso é superior à força dos atônitos garotos. Foi preciso a ajuda de adultos. O velhinho foi carregado para dentro de uma casa e colocado sobre um surrado sofá. Alguém aciona o socorro medico público.
Na rua, a mesma fofoqueira queria saber quem era. Mais valia sua curiosidade que o sentimento de ajuda ao próximo. A realidade chama para o fato incontestável de que o mundo está mais cruel e que o coração das pessoas está mais seco, mais endurecido.
Um menino de calça rota abaixa-se e beija o rosto da figura desfalecida. Um dos presentes enxuga-lhe a face e diz – “Tá todo molhado pela chuva”! Porém o menino retruca; “Não é chuva não, moço, é lágrima !
A identidade do Papai Noel fora descoberta. O socorro médico demorou. Só foi possível ao médico atestar a causa mortis . A cerimônia do funeral foi feita por um dos parentes, que respeitou fielmente as vontades do falecido. Ele foi sepultado trajando a roupa de Papai Noel e acompanhado de inúmeros meninos, meninos que ele conquistou em uma só noite, quando teve toda uma vida para amá-los.
Em ação espontânea, os meninos presenteados começaram a cantar de forma desafinada, mas afinados com o sentimento de gratidão:

“ Anoiteceu, o sino gemeu
e a gente ficou feliz a rezar.
Papai Noel vê se você tem
a felicidade pra você me dar.
Eu pensei que todo mundo
fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade eu pensei
Que fosse uma brincadeira de papel
Já faz tempo que eu  pedi
mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade é brinquedo que não tem.”

Ao fechar-se a tumba, lia-se na lápide:

Aqui jaz um homem que soube cobrar dos homens,
mas ficou devendo às crianças”


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