terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O que será do amanhã ?


O Brasil continua o mesmo: apenas modulando o volume do som das notícias e impulsionado por propaganda formatada com o intuito de mostrar “progresso social”. Entra um político, sai outro! Fazem-se promessas já ”tão antigas e fora de moda”, mas são feitas e mesmo assim fazem efeito no intelecto(?) do leitor.  Porém, logo, logo, caem no esquecimento de quem fez e de quem quis acreditar. Explodem os escândalos e as autoridades prometem punição exemplar para os culpados, mas imediatamente os  “suspeitos” são locados em outros setores até o “caso esfriar”. Coisas de amigos ! É o caso de se dar a Jader o que é de Barbalho.
A Lei esbraveja em forma de proteção ao povo – ato teatral – que encanta os próprios políticos. Os  aplausos ecoam nas diversas câmaras. Flashs, notícias , e manchetes. Os políticos se ufanam e apontam o dedo indicador para o lado oposto em busca do culpado. Abrem-se CPI’s com duração efêmera e inócua. No dia seguinte tudo será como foi antes !
“O que será do amanhã ? Como vai ser o meu destino?
Publicado no Jornal O Globo - Carta dos Leitores 08/01/2012

Tatiana

T A T I A N A.

Uma história real.


Hoje foi mais um dia na tua vida.
Desde cedo, acompanhei tua atividade- haja geleia de mocotó, iogurte  e mel.  
Estavas tu a correr, brincar, sujar o chão e as paredes recém pintadas. Flagrei-te a lambuzar o rosto com caldo de feijão. Depois, com chocolate que se derretia em função do calor. Observei  pedires “cocola” e “coito” por satisfação e gulodice. E o teu pintinho de estimação ? Como tu o maltratas no afã de acariciá-lo ! De nada adianta o seu piado de socorro. Enfim, filha amada, acompanhei atentamente o teu dia e, agora, dormes ! Um anjo a dormir, pura e sem pecado !
Não sei o que se passa na tua mente inocente, pois dormes placidamente. Vez por outra, aflora em teu lindo rosto um sorriso. Sem dúvida, sonhas com algo bonito. E, enquanto sonhas, fico eu a relembrar o dia em que tu vieste para enfeitar o mundo.
Lembro que me sentia bastante feliz. Na realidade, não bastante feliz, e sim, radiante. Via no rosto da tua mãe a expectativa pela tua chegada. Puxa vida ! Quantos planos fizéramos ! Eras tu ainda um minúsculo embrião. Depois viraste um feto comprovadamente e aí tudo ficou mais real. Durante vários meses acompanhei o teu desenvolvimento, escutei o teu coração e tu crescias. Crescias e tomava forma de gente. E eu te amava e te esperava. Imaginava que parecerias comigo – egoísmo perdoável de pai. Pintava-te ao  meu modo. Já te via criança e também mulher, pois , mesmo não sendo possível saber o sexo, sabia-te menina. Embriagava-me em ti.
E chegou o dia do teu nascimento. Estava eu atento a tudo e a todos. Nada se passava desapercebido. Quis assistir ao parto, mas faltou-me coragem. Preferi, nervosamente, esperar colado à porta da sala cirúrgica. Os minutos corriam céleres. Multiplicavam-se geometricamente. Mesmo assim, que demora !!
_ Você é pai ! – falou o médico.
Meu coração explodiu  de contentamento. Pulei, vibrei, fiquei cego de delírio. Dancei um ritual desconhecido. Por alguns segundos fui louco, porém..
_ É uma menina muito pequena e corre sério risco. – O médico transmitiu tal notícia pausadamente. Nesse exato momento, senti-me como uma bola espetada por um alfinete. Não estourei, todavia, enquanto escutava, ia murchando, murchando. Toda a alegria, todo o sonho acalentado foi minguando e eu, minguando também, e reduzindo-me a algo ínfimo.
Após algumas horas, depois de mentir a tua mãe, consegui ver-te. O quadro foi horrível. Dilacerante, mesmo. Lá estavas tu, arquejante,lutando para respirar, respirar para viver. E eu, inútil, sem forças para gritar, para lutar por ti, entregue e vencido.
Não quis acreditar. Recusei-me a aceitar tal fato. Meus olhos lacrimejaram. Duas, três, quatro... Não sei quantas lágrimas brotaram. Não sei o que senti. Sei apenas que meu coração ficou minúsculo e o tempo parou.Anestesiado fiquei. Imóvel. Todavia, e apesar de tudo, eu te achei bela. Comparei-te a uma raridade de porcelana chinesa,  tal a mimosidade das tuas feições. Pareceu-me que tu havias sido feita  com um finíssimo pincel. Nesse momento, perguntei-me: O que houve ? Qual o erro no pré-natal ? Lembro-me de que  gastei o que não tinha. Pedi empréstimo para poder dar a ti o melhor em alimentação uterina, através da tua mãe. Dei a ela a tranquilidade necessária para que tu  nascesse sadia, rosada e robusta.Mas, nada disso acontecera. E DEUS ? Por que assim me castigava? Por que  fazer-te anjo antes de fazer-te minha filha ? Briguei com ELE. Blasfemei uma vez, duas vezes e desafiei o Céu !
Horas mais tarde, a medicina tirou-me a esperança de ser teu pai. Chorei copiosamente. Depois  elevei meus pensamentos a DEUS. ELE condoeu-SE com meu sofrimento e deu-me a confirmação de que ELE existia e cuidava de mim. Eu entreguei tua vida e o  teu destino ao Pai Supremo. E assim, filha minha, tua vida foi salva. Deus permitiu, para felicidade minha e da tua mãe, que nós te embalasse nos braços e te pusesse sempre bem pertinho do  nosso coração.
Bem,  eu poderia enumerar todas as tuas virtudes, tuas qualidades e também teus defeitos. Poderia pintar-te tal qual uma santa simplesmente, partindo da formosura do teu lindo rosto. Poderia dizer, também,  que tu és um diabinho calcando-me sobre as tuas peraltices, tuas manhas e birras. Sob esse aspecto, diria que tu saíste à semelhança da tua mãe e, para não deixar a santa sogra no ostracismo, reforçaria que tu tens a língua tão venenosa quanto a dela. Mas, não é isso, filha! Tem algo muito mais profundo que tudo isso. Peço-te perdão. Coloco-me a julgamento e aceito o papel de réu. Sem dúvida, se tivesses o conhecimento real das coisas, perguntaria : Por que se julga culpado ? Por que me pedes perdão ? Você é réu de quê? Cometeu você algum crime? E eu responderia  que sim.
Minha querida, tu bem sabes que és tudo que eu tenho. Que és a essência boa da minha vida. Que eu verdadeiramente te amo, mas, talvez tu não saibas que eu tentei planejar tua vinda  para este mundo cão, este mundo cruel. Esperava poder preparar-me financeiramente e psicologicamente  para receber-te. Contudo, não foi bem assim que aconteceu, pois, no ato da tua concepção, não pensei em ti. Pensei simplesmente em satisfazer-me. Um ato a mais para provar que sou homem. Que posso ser amado em troca da satisfação sexual que posso proporcionar. Que sou o “tal”. E isso não acontece somente comigo. Todos os homens assim agem, mas poucos têm a coragem de admitir. Somos animais piores que os irracionais. E por sermos assim, nós mesmos formamos um mundo de misérias, de sofrimentos e de angústias. Constatamos diariamente atos contra os quais nos revoltamos. É duro vermos crianças desajustadas, mendigos a esmolar, assassinos a matar, ladrões a furtar e por aí afora. E nós continuamos a engravidar sem nos preocuparmos com o futuro dessas crianças.
Muitos são os que hão de condenar essas vítimas da sociedade, todavia os culpados por essa situação são os próprios pais, pais que não tiveram a nobreza de amar seus filhos antes da concepção, que não tiveram a sensatez de lhes preparar uma base forte para sobreviverem e que não souberam ser homens verdadeiros quando do ato da fecundação.Filha, é por tudo isso que eu te peço perdão. É bem verdade que eu dou a ti tudo que posso, mas tu poderias fazer parte dessa parcela de infelizes criaturas que povoam a terra. Tenho certeza, filha querida, que serei compreendido e perdoado, mas aí vai uma verdade que tu ignoras: sou filho dessas circunstâncias.