segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

GATÃO DE IDADE E MEIA

Gatão de idade e meia
O homem em frente ao espelho observa seus cabelos brancos. Franze a testa e vê acentuar não apenas uma ruga, mas dezenas delas. Tenta relaxar a pele e a descontração faz algum milagre, todavia o tempo marcou sua presença. O que o tempo faz, tá feito, não há como retroceder nem remediar : que maldade !
Decide, então, mudar. È agora ou nunca.
Rapidamente veste um conjunto esportivo, calça os tênis e desafia o calçadão. Parece um Robocop desfilando em escola de samba no sambódromo. Uma figura !
Sente o suor a escorrer pelo corpo. Passa o dedo sobre a fronte para expulsar o excesso de suor. Passa uma bela jovem em sentido contrário ao seu trajeto. Traja ela também um uniforme de "marca". " Que bela fêmea" ! Pensa o aprendiz de atleta. Por força do hábito, lança um olhar pra trás e se encanta com o sobe-e-desce daquele bumbum arrebitado. De imediato, dá ele meia-volta e decide acompanhar a "gatinha", mas , aos poucos, vê sua pretensa presa se distanciar. Ele já não tem mais fôlego e pára exausto. Nessa fração de tempo sua consciência faz um balanço da vida.
Olha para sua volumosa barriga - apelidada de "calo sexual" - que o impede de ver o seu surrado, cansado e preguiçoso "pinto". Lastima-se. Recorda, com saudade, da Júlia, Ritinha, Débora, Beth, Glória Maria - não a reporter - e de tantas outras que marcaram sua vida de conquistador, mas que não o domaram. Abre um sorriso de triunfo. Lembra das mentiras e falsas promessas feitas a elas. Não importava a ele o meio empregado para conquistá-las, pois o principal seria ter a "caça abatida", sem escrúpulos ou dó.
Era ele um caçador.
Via passar à sua frente crianças com tranças e sorvetes coloridos, com jogos de plásticos , cornetas e velocípedes. Muitas o chamavam de "tio", e , pela primeira vez sentiu a "poesia" no pronunciar da palavra "paê". Talvez ele o fosse, mas não o sabia. Mercê das suas inúmeras aventuras amorosas, poderia ser pai, porém sem registro. Refletiu:
"É, o tempo passou ! Passou e eu não percebi ! Só pensei no presente e não dei importância ao futuro. Tenho bens materiais, mas falta-me a candura do carinho puro e espontâneo. Do contato da pele com a sua própria pele. Do calor envolvente do seu próprio sangue. De ver sua própria miniatura em tenra idade em frente à forma enferrujada e maltratada pelas intempéries do tempo, mas que deu fruto. Fruto bom e regado de cuidados , preocupações e amor. Nesse seu estado d"alma, a emoção se faz mais forte que a razão irracional e estéril. Neste exato momento, na lua ...
São Jorge, aproveitando a raia longa oferecida pela lua nova, puxa as rédeas do seu lindo corcel branco - que vinha em vigoroso galope - e o faz parar incontinente. O fogoso animal empina-se fazendo pose para algum "paparazzo" disparar seu flash e São Jorge aguça os ouvidos para escutar o diálogo entre duas estrelas fofoqueiras:
- Pobre mortal ! Teve a vida toda para cuidar da vida. Agora já é bem tarde.Diz, uma para a outra.
A amiga de janela e apreciadora de novela responde e conclui:
- O jeito é cuidar da alma, pois o corpo "já era".

Sidney Tito
Sidneytito@yahoo.com.br

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