quinta-feira, 23 de abril de 2015

A Ostra.

A Ostra.

O mar revolto surrava violentamente a pedra. As onda fortes subiam e desabavam sobre a pedra e a ostra. A espuma em forma de véu de noiva faziam-nas desaparecer momentaneamente. A ostra agarrada à pedra era a que mais sofria.
_ Estúpido ! Grosso ! Tolo ! Imbecil !
Assim desabafava o molusco. Indiferente ao protesto do animal, o mar atacado de fúria, castigava e ampliava seus açoites, não permitindo trégua.
No decorrer do seu desabafo – única ação que lhe era permitida – a ostra recordava do tempo em que ainda era uma “criança”. Naquela época o mar apaixonado pela rocha demonstrava todo seu encanto, sua suavidade e o seu amor. Ele osculava a pedra carinhosamente e se aproveitando do seu enorme volume a enlaçava em seus braços sem fim. Com seus lânguidos e frenéticos beijos deixava a amada em total êxtase. Ele a possuía por inteiro: o prazer da rocha era quase interminável.
Apesar de a ostra não possuir um completo conhecimento das ações e reações do mundo à sua volta, conseguia dominar, compreender e entender de sentimentos. Sabia da vida e da morte. Do sorriso e das lágrimas. Só não conseguia - ainda – entender essa transformação quase assassina do mar. No seu diálogo com a amiga, escutava seus lamentos, suas queixas e as angústias por ela desfiada. Tinha-lhe amizade de longos anos e quase um amor filial, pois, a rocha tinha sido seu berço, seu lar, seu abrigo. Ambas sofriam e só tinham uma à outra e o sol por testemunha.
A brisa da noite, tentava avisá-las e sussurrava sempre: “ciúmes de você, ciúmes de você”. Todavia, nada mais esclarecia. As amigas divagavam e teciam inúmeras conjecturas, porém, uma só se configurava como mais evidente: o mar tinha ciúmes do convívio da rocha com a ostra.
-“Bobagem”- ambas diziam, todavia a incerteza ou o medo de reconhecer a verdade montou morada no pensamento das amigas.
Ao longe, um barco pesqueiro recolhia as redes bem servidas de peixes. Os pescadores fumavam, bebiam e cantavam felizes, pois a sorte os haviam premiados com excelente pesca – Salve São Pedro !
Um golpe certeiro de lâmina afiada desgruda a ostra da pedra. O molusco sabia do seu destino, porém não poderia determinar o momento. Apesar do ocorrido – triste para ela – sentia-se aliviada, pois assim o mar voltaria a ser como outrora. Sua amiga sentiria – outra vez - as carícias do amado, contudo não garantiria a correspondência afetiva da rocha para com o mar.
A noite se vai e surge um novo dia. Assim como surge um novo dia, surgem também novas promessas, novas situações, novas decisões e novos rumos. Vidas que se transformam, sonhos que se concretizam, frustrações que surgem. O tempo passa....
Outra ostra se encrava na velha rocha. O mar vem , beija a amada , a ”possui” e contrai novas núpcias. É apenas um novo recomeçar. A nova ostra começa a crescer e, à medida que cresce, o mar se agita e passa a ser furioso. Ciclo que vai, ciclo que vem, tal qual a roda da vida.
Sentado sobre a rocha está um homem com olhar distante e embaçado. Em suas mãos uma carta amassada. O pensamento do homem está em ebulição demonstrando um inconformismo. Limpa o nariz e os olhos tomados por coriza e lágrimas. Na carta há uma frase grifada:
“seu ciúme me sufocou e matou o amor que nutria por você; chega ! Não há volta.
O homem mergulha no mar. Dá vigorosas braçadas e retorna ao ponto inicial. Acomodado, relaxa e reler, pela última vez, a carta. Reconhece o erro e admite a separação: fui um tolo. O ciúme me fez cego, bruto e demonstrou o quanto fui egoísta e irracional.
O mar observa o intruso e invasor e monta uma nova e gigantesca onda. A onda lava a rocha e traga, para sua profundeza, o homem e a carta e assim sepulta mais um caso de amor desfeito. Só o céu por testemunha.
A rocha, devidamente convicta da agressividade do mar, toma a decisão de servir de colo para outras ostras .Decide desafiá-lo. De tanto apanhar criou fendas que serviam de seguros refúgios para as ostras amigas. Amedrontada e castigada apelou para Netuno, que demonstrando poder e autoridade “ralhou” com o filho agressivo. O mar finalmente compreendeu que não mais existia amor entre a rocha e ele. Aconselhado também pelo vento e pelo sol se fez brando e chorou lágrimas bem salgadas.

Nenhum comentário:

Postar um comentário