sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Zé do Burro


Zé do Burro.


Nordestino, sim senhor ! Cabra da Peste ! Bicho doido !

Zé por batismo em homenagem a São José. A alcunha veio pelo lidar com o animal, símbolo da força, da perseverança e pelo fato deste animal se amoldar às dificuldades climáticas e do solo árido.

Zé sonhava em preto e branco. Preto do infortúnio como a falta de oportunidade para estudar. Estudar para aprender a ler, ler para saber, saber para se formar e ser um” doutô”, ser respeitado para poder mandar, dar ordens.

Seu desejo e exemplo de poder e abastança eram focados na figura do Coroné Nepomuceno – dono da região – plantador de algodão, mandioca e criador de bode.

Seu sonho colorido era ser doutô, formado na capitã, para poder mandar no velho coroné. Não por maldade, mas para fazer entender ao velho coroné que não se pode pisar no homem humilde. Esse seu sonho iria de concretizar. Seu “paizinho do céu” o iria ajudar.

Desembarca no Rio – êta cidade grande – e se aloja na casa do “cumpadre Tonho”, pois na vida do descamisado e do sem-teto só a fé em Deus e solidariedade do irmão também abandonado pela sorte os pode ajudar e dar guarida. Para vencer na vida, somente com o fruto do trabalho de sol  a sol. Nada de descanso, quer no sol, quer na chuva.

Assim, Zé do Burro garimpou amigos e mais amigos. Depois de muitos anos fundou uma cooperativa de catadores de lixo. Trabalhou e deu trabalho para quem pedisse e tivesse disposto à labuta. Prosperou, criou pança e foi chamado de “doutô”. Resolve voltar ao seu lugar de origem. Foi de ônibus em vez de “pau-de-arara”.

Não encontra o velho Coroné Nepomuceno, mas faz contato com descendentes dele. E como havia prometido, bota preço na fazenda e a resgata para si. Deu festa de posse com direito a música  de banda, comilança e cachaça. Sua fama  se espalha pela região

Zé do Burro se viu vestido com roupa de festa e botas de couro reluzente. Botou na cabeça chapéu de couro em cuja aba fincou uma pena de gavião presa por um fecho de ouro. Na fivela do cinto largo brilhavam as letras Z e B.. Zé do Burro se viu encarnado na figura do falecido coroné, vinte anos mais moço que aquele.

Manda o capataz buscar Chiquinha do Engenho. Toma uma talagada de aguardente, senta na antiga cadeira de balanço e passa a contar as cabeças de gado:
...um. dois, três .......

-_ Acorda, cabra da peste ! – Um berro interrompe o sono. Zé do Burro acorda sobressaltado.

_ Deus, meu ! Que diacho de sonho doido !

Levanta-se, pega o burro pelas  rédeas e o faz puxar a velha carroça e continua a vida.

“Compro garrafas, alumínio e fogão velho. Pago bem.

Enquanto anda, reclama, cuspindo por entre os dentes: “Pobre não pode sonhar colorido. Quando o consegue , vira pesadelo .



Sidneytito@yahoo.com.br.

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