O RETIRANTE.
A miséria mora no sertão.
O sol estava a pino.
Do alto, mesmo não sendo ainda a metade do dia, o astro rei observava toda a agitação cá embaixo.
Ao longe ecoa uma canção de fé entoada pelos cristãos, beatos e devotos de Padre Ciço. È a procissão serpenteada por homens, crianças e mulheres crédulos que suplicam por chuva: nada muda, sempre igual !
“ No céu, no céu, com minha mãe estarei.
“No céu, no céu, com minha mãe estarei”.
Em cada mão um terço e noutra uma vela acesa. Velas que se queimam e que também queimam as mãos de quem as protegem e transportam. Mãos que jamais se unem uniformemente em decorrência da calosidade da pele e dos ossos. Ossos deformados pelo atrito do baque entre a enxada e o solo seco e duro. Ação teimosa e esperançosa no cuidar o chão para plantar o broto da cana e o dente de milho. Milho que vira farinha, farinha que se transforma em papa. Papa que mata a fome e que se come lambendo os dedos.
Dedos que enfeitam as mãos. Mãos calosas que aprenderam a alisar os cabelos encarapinhados pela sujeira oriunda da poeira que se eleva do solo tórrido – como se em fuga estivesse. Solo tórrido que bebe sôfrego as lágrimas de quem ainda tem alguma nova angústia ou sofrimento a curar.
Olhos fundos de sofrimento. Olhos sem brilho, mas que tentam ver além do horizonte algo bom e que faça provocar um sorriso na boca banguela. Boca de lábios secos e papilas dilatadas . Papilas que se dilataram aproveitando-se da metamorfose dos órgãos para conhecer e degustar novos sabores além da carne seca, da carne de sol, da tapioca, do peixe defumado e do calango assado. Papilas que se dilataram na busca por água fresca e já enjoada da saliva escassa e sempre igual. Boca sedenta, boca que murmura e suplica, boca que reza e agradece a Deus por qualquer mínimo que se tenha. Boca que também amaldiçoa a própria vida de desventura. Boca que se cala esperando o que o futuro trouxer.
À medida em que o retirante andava o som da procissão se enfraquecia ao contrário da saudade que aumentava. Deixava ele para trás uma mulher grávida e mais um filho barrigudo de olhos remelentos. Os pais alquebrados pelo tempo fariam o papel de provedor. Ele era o único filho vivo. Foram 12 irmãos, assim como foram os 12 apóstolos.
E ele ficou só, tal qual Jesus ! Seguiria pelo deserto não para jejuar, mas em busca de um trabalho na capitá . O trabalho conseguido lhe daria o suficiente para encher a boca e a barriga dos que lá ficaram. Deus – sempre piedoso – haveria de lhe mostrar o caminho do sucesso. Voltaria rico, sadio , com dente de ouro e cordão em volta do pescoço.
Sentiu-se seguido. Parou e olhou para trás. Seu pequeno cão o havia seguido e o encontrara.Trazia na boca uma cobra quase morta.
- Deus meu ! – exclama atônito.
A cobra coral estava morrendo, mas também fizera sua vítima. O seu querido animal já mostrava as pernas bambas. Caiu ganindo ao ser amparado pelo fiel amigo e dono. Espumou pela boca que se escancarava. Os músculos de retesaram e o corpo inerte se fez .
Seu olhar anuviou-se. Nada mais a fazer.
O coração do retirante tomou um baque, disparou e ameaçou explodir. Acariciou o querido animal. Com raiva disparou o hastil no centro da cabeça do réptil que teimava em viver.
- Desgramada ! mardita ! Fez a desgraça no Paraíso e agora rasga meu coração.
Jogou-a para longe, com raiva.
Com as mãos e com uma pedra em forma de concha abre uma pequena cova. Traz o corpo inerte do canino e o embala junto ao peito, como se embala a um filho. Grava na retina a última imagem do animal.
Retira da sua trouxa de viagem uma velha e rota camisa de flanela quadriculada e agasalha o cadáver do cão. Enterra-o e cobre a sepultura com pedras e madeiras velhas e retorcidas. Não se vai. Permanece ajoelhado como a encomendar o corpo ao seu Deus. Está magoado. Cobre o rosto com as mãos. Seu peito explode em soluços. E assim permanece por longos e dilacerantes minutos.
Relembra que o cachorro apareceu em sua casa, surgindo do nada. Ambos se entreolharam. O cachorro abanou o rabo e o coração do homem abriu-se para recebê-lo. Desde então, não mais se separaram. Chamou-o de Relâmpago, pois o achava rápido demais. Assim, essas duas vidas se entrelaçaram.
Sacou da velha peixeira e improvisou uma cruz. Talhou o nome do animal e fincou a cruz sobre a cova. Limpou as mãos na velha , encardida e surrada calça e seguiu em frente. Olhou, uma vez mais, para trás e soletrou:
“RE – LA – NPO”.
O retirante bate estrada. A peleja é longa, árdua e dura. Sequer sabe ele da dimensão da empreitada. Sabe que só tem dois finais; a vida ou a morte. Segue firme. O sol castiga-lhe o couro curtido. Vem a noite. O cansaço se apresenta forte, tão forte quanto a índole do andarilho. A noite – com o luar de prata – suaviza o calor. O caboclo se agasalha. Durante alguns dias a rotina não se altera. De dia é só caminhar. À noite o descanso para o corpo moído, suado e fedorento. Bate o desânimo, mas sabe ele que o desânimo representa a derrota e a derrota é o triunfo da morte.
Sua visão é real. Ao longe avista sinal de fumaça. A casa é pequena, irregular e rude como é bem comum na região. Ouve choro. Apura os ouvidos e confirma o que acabara de escutar. Anuncia-se:
_ Oi ! tem gente em casa ?
Aparece à porta da choupana uma mulher magricela e de cabelos soltos e sujos. Um vestido de chita desbotado e encardido cobre-lhe o corpo frágil, mas deixa à mostra um par de cambitos com inúmeros sinais de sífilis.
_ Se achegue, se for de paz, moço.
A solidariedade do nordestino flui nas veias.
O cabra pergunta o motivo do choro. A mulher o convida a entrar e diz :
_ “Minha mãe” – indica-a. A velha senhora ampara um corpo de bebê, porém já morta.
_ Durou apenas um dia. Veio ao mundo muito fraquinha.Minha filha sequer tinha leite para alimentar a pobrezinha.
_ Que Deus a tenha em seu reino. – diz o viajante, contrito.
O sertanejo ao se deparar com a cena, retira o chapéu da cabeça e o coloca sobre o peito
O respeito intuitivo é outra marca forte do homem rude do agreste.
_ Cadê o pai ? - Pergunta o homem às mulheres.
_ Saiu pro mundo quando dei a notícia de que estava embuchada. Nunca mais apareceu. Se arribou de vez. Peste ruim, seu moço !!.
Rezaram uma Ave Maria. O retirante pede à mãe e à avó permissão para enterrar a criança. Risca na fronte e no peito da criança o sinal da cruz e com este gesto simbólico transforma o pagão em anjo. Faz o que tem que ser feito. De cabeça baixa e olhos cerrados, resmunga: que sina !!
Antes de seguir a caminhada, reparte o pouco que tem; um pedaço de rapadura, um punhado de farinha, uma cuia de feijão e um pedaço de charque. Seu gesto deixa seu coração mais leve, embora magoado pela tragédia ocorrida.
Encara o sol escaldante. Já não sabe para aonde vai. Perdeu o tino e já se sentia o miolo mole. Um calafrio estranho o faz sentar ao pé do velho e desfolhado juazeiro. Olha para o céu azul de imensidão sem fim. Ele sabe que ali mora Deus.
Bem no alto os urubus voam em círculo à procura de alguma carniça. No galho mais alto da árvore, o gavião observa a cobra. Cobra que tenta encantar o rato. Rato que namora os ovos escondidos sob pedras.
È o ciclo da vida !
O andarilho já delira. Vê a imagem dos pais, o sorriso falhado da mulher, se encanta com o beijo do filho e se alegra com a corrida do Relâmpago.
È a roda da vida.
No céu os urubus voam em círculo. Mais abaixo o gavião observa a cobra que tenta encantar o rato, rato que namora os ovos.
È o ciclo da vida. È a roda da vida. È a vida girando. È o girar da vida.
Concorreu em Talentos da Maturidade, edição de 2009.
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